Elaise de Mello nasceu em Sorocaba, mas vive em Franca desde que se casou com o empresário Laércio Barbosa, do Grupo Jussara, do segmento de laticínios. Ambos são pais de Lucas, 24 anos, engenheiro. Formada em engenharia de Alimentos pela Unicamp, fez especialização em Nutrição e Saúde Pública na Universidade de Ghent, na Bélgica, e mestrado em Tecnologia de Alimentos na Unicamp. Sua formação a levou a atuar na área de qualidade e desenvolvimento de bebidas. No momento, dedica-se a dois outros grandes interesses, que são a literatura e a natureza.
No que diz respeito ao primeiro, com seu olhar curioso e atento às manifestações da cultura, ela se distingue nos eventos da cidade que miram as artes; e atua como parceira num grupo de francanas que disponibilizam livros à comunidade de leitores através do projeto Geladeiroteca, com presença em lugares públicos e alcançando diversos bairros.
Em relação ao segundo, inspirada pela mãe, desde criança aprendeu a amar e respeitar o reino vegetal, a olhar para as árvores com encantamento e gratidão diante da presença vibrante das grandes espécies, suas folhas, flores, frutos e sombras. Foi natural portanto que atendesse ao convite para integrar o comitê Verdejar, um dos ramos da árvore singular plantada por Luiza Helena Trajano, do Grupo Magazine Luiza. A referência é ao movimento Mulheres do Brasil, cujas raízes firmes e tronco cada vez mais fortalecido são sinal dos cuidados que recebe e da energia que canaliza em prol de causas importantes a uma sociedade que se almeja mais justa e solidária. Em 2016, Eliane Querino, diretora da Know How, líderança do núcleo Franca do Mulheres do Brasil, criou o Verdejar e convocou várias francanas à participação. Elaise de Mello foi uma das que abraçaram com alegria a causa, junto à educadora Maria Lídia Borges Machado na coordenação do projeto.
O Comércio da Franca ouviu Elaise para mostrar aos leitores sua mentalidade arejada de cidadã conectada com o pensamento ambientalista. Nesta entrevista ela assinala que os francanos ainda precisam plantar milhares de árvores para alcançar o ideal de três por habitante. Manifesta preocupação com os incêndios na Amazônia e no Pantanal, a tragédia de Brumadinho, o óleo derramado no oceano que atinge as praias do Nordeste, a saída dos EUA do Acordo de Paris, “com acusações sobre uma conspiração mundial contra a economia deles – que são os maiores produtores de gases de efeito estufa per capita do planeta.” Resume sua intensa rotina diária de trabalho no Verdejar. E desvela não só o olhar estético sobre as árvores que embelezam nossa cidade mas, principalmente, o apreço pela saúde dos francanos - e do planeta, pois afinal, como ela diz, “minha maior preocupação é com as gerações que virão. O que deixaremos para os que ficam? “Seu lado literário irrompe algumas vezes de forma metafórica na fala, que em certos momentos borda com poesia o olhar carinhoso sobre a natureza: “árvores são seres vivos que precisam ser cuidadas enquanto bebês.”A preocupação social transparece em frases como as que se seguem: “Ficamos mortificados com os loteamentos em meio terreno onde não tem espaço para plantio de árvores. Estudos mostram que pessoas que vivem em áreas arborizadas de uma cidade vivem dez anos mais que aquelas que vivem em bairros não arborizados”.
Você sempre olhou para as árvores com admiração e sentimento de cuidado?
As árvores sempre me encantaram com sua presença vibrante, flores e frutos. Minha mãe, hoje com 81 anos, foi e é uma grande cuidadora de árvores e aprendi com ela a amar e respeitar a natureza.
Por que plantar árvores?
Viver num local arborizado é mais saudável. Uma cidade arborizada é mais bonita, é mais fresca. O ar é mais puro, mais úmido. Conviver com as árvores nos garante mais saúde física e mental. Onde tem árvores há menos enchentes. Além disso, plantar árvores ajuda a neutralizar as pegadas de carbono que deixamos no planeta com nossos hábitos de consumo e de vida.
Como tem visto a natureza neste nosso tempo onde a questão de pertencimento humano ao planeta anda tão frágil?
Acredito que somos todos interligados e conectados, inclusive, com a natureza. Quando as pessoas ignoram essa interdependência ocorrem problemas na vida de todos e do planeta. Os recursos naturais são finitos e não suportam o excesso de consumo que as pessoas estão buscando. Este ano foi triste para o meio ambiente, em especial aqui no Brasil, com as tragédias de Brumadinho, as queimadas na Amazonia e no Pantanal, o derramamento de petróleo no mar do nordeste. Hoje (terça-feira) fiquei preocupada com a formalização da saída dos EUA do Acordo de Paris, com acusações sobre uma conspiração mundial contra a economia deles – que são os maiores produtores de gases de efeito estufa per capita do planeta. Minha maior preocupação é com as gerações que virão. O que deixaremos para os que ficam?
Quando surgiu o movimento ‘Verdejar’, que se transformou num projeto tão forte?
O comitê Verdejar faz parte do grupo Mulheres do Brasil e foi criado no início do núcleo Franca – coordenado pela Eliane Querino, em setembro de 2016. Nossa primeira ação foi em fevereiro de 2017 no Centro Comunitário do City Petrópolis – é uma alegria passar por lá e ver tudo tão bem cuidado, as árvores tão grandes. Depois disso fizemos uma ação junto com os alunos do Senac em julho de 2017 e a partir daí temos plantado todos os meses de 50 a 70 árvores. Essa constância e cuidado com o que fazemos ganhou o respeito da comunidade que hoje nos procura tanto para o trabalho de arborização em residências como para o trabalho de educação ambiental que fazemos em creches e escolas.
Qual foi a motivação mais profunda para você sair plantando mudas de árvores, mobilizando voluntários a seguirem juntos?
Eu sempre quis fazer algum trabalho na área do meio ambiente e a oportunidade surgiu dentro do grupo Mulheres do Brasil, que tem diversas áreas de atuação. Já na primeira reunião do grupo de Franca, na casa da empresária Luiza Helena Trajano, que preside o grupo no mundo, eu decidi colaborar nessa área e me juntei a Maria Lídia Borges Machado no Verdejar. Acredito na importância de cuidarmos da natureza, de vivermos em sintonia com ela. Acredito também no trabalho voluntário, na importância de devolvermos à comunidade um pouquinho do muito que recebemos.
Como é seu trabalho? Quem são seus parceiros?
Posso dizer que tenho atividades diárias no Verdejar, seja respondendo contatos de interessados em plantar, seja organizando eventos e atividades. Temos reuniões, plantios mensais e atividades de educação ambiental em escolas e creches, atividades de divulgação do nosso trabalho até mesmo com o que chamamos de “adoção de mudas” - porque árvores são seres vivos que precisam ser cuidadas enquanto bebês. Todos os nossos plantios são registrados, assim como toda a parte administrativa e financeira, o que exige tempo, atenção e dedicação. Conforme fomos avançando em nosso trabalho fomos conseguindo mais apoiadores. Hoje temos a Unimed, o Laticínios Jussara, a Tetra Pak, a MacBoot, a Ecoplans, o Ibama de Ribeirão Preto, a TipToeyJoey, a Fazenda Daterra, a Homea, a Sapucaia e a Prefeitura de Franca como principais parceiros.
Recebem apoio do poder público?
Sim, a Prefeitura de Franca nos apoia e recebemos algumas mudas todos os meses do Jardim Zoobotânico. Em certas ocasiões fizemos plantios conjuntos com eles. Faremos um reflorestamento dia 8 de dezembro no Jardim Noêmia em área indicada pela Prefeitura e onde o Poder Público vai se responsabilizar pelo preparo do solo para o plantio das 3.500 mudas doadas pela MacBoot e pelo Ibama. Será um plantio feito por mais de 500 voluntários. Estamos convidando todos que possam ajudar.
Qual o perfil dos participantes neste trabalho? Eles têm funções determinadas?
Temos entre os participantes todo tipo de profissional e mesmo que o grupo seja parte do Mulheres do Brasil também temos homens participando, que são padrinhos de plantio e voluntários. Cada voluntário oferece o tempo e trabalho que seja possível e alguns deles fazem trabalhos específicos como marketing, transporte de mudas, preparo e distribuição de mudas entre os participantes, separação dos kits de plantio, divulgação, participação em eventos de educação ambiental e de adoção de mudas, e, claro, os plantios mensais num domingo pela manhã.
Com que palavras definiria o ‘Verdejar’?
O Verdejar é uma paixão, mobiliza pessoas por um mundo melhor. Quem aprende a cuidar de árvores também cuida de pessoas e da vida, transforma o mundo ao seu redor.
Qual o papel do Jardim Zoobotânico no projeto?
O Jardim Zoobotânico de Franca fornece mensalmente de 10 a 20 mudas para o plantio do Verdejar.
A população francana está mais consciente de que o reino vegetal é essencial para a manutenção da vida no reino animal?
Vejo as pessoas sobrecarregadas de trabalho e de atividades, anestesiadas com relação ao seu propósito de vida. Nosso trabalho também é divulgar a importância da natureza e das árvores e acordá-las para uma vida mais plena.
Ainda se encontra morador que mata com ácido na raiz árvores plantadas na calçada porque elas “sujam” a via com suas folhas? Nesses casos há uma estratégia de aproximação didática?
Sim, ainda recebemos denúncias. Mas dificilmente criminosos assumem publicamente suas ações e por isto ainda não criamos nenhuma estratégia de abordagem nesses casos de denúncias. Trabalhamos sempre a educação ambiental junto a toda a população.
Que espécies têm sido plantadas pelo grupo?
Plantamos espécies adequadas para o local escolhido. Temos no grupo uma arquiteta paisagista, a Ana Vivian Vianna, que ajuda na indicação das melhores mudas para serem plantadas nos espaços definidos. Seguimos também a Cartilha de Arborização Urbana de Franca, disponível no site da Prefeitura.
Franca é uma cidade bem arborizada?
Se considerarmos que uma cidade deveria ter três árvores por habitante, Franca deveria ter mais de 1 milhão de árvores plantadas, para a saúde e bem-estar de sua população. O Relatório de Arborização Urbana de Franca publicado em 2019 indica que a cidade conta com apenas 51.000 árvores nas ruas, avenidas, praças e alguns de seus parques. Tem ainda mais árvores em parques e matas que não foram contabilizadas nesse estudo e que não sabemos estimar. Mesmo assim podemos falar com segurança que existe um déficit bastante grande entre o necessário e o que temos na cidade.
Quantas árvores o ‘Verdejar’ já plantou? E quantas pretende plantar?
Nossa meta é fomentar o plantio de 1 milhão de árvores na cidade. Se todos se unirem chegaremos lá rapidamente. Até o final de 2019 teremos plantado mais de 5.000 árvores em Franca, o que representa 10% do número apresentado no Relatório de Arborização Urbana de Franca.
Comércio da Franca - Existe um acompanhamento do plantio, para saber se as mudas vingaram ou precisam ser trocadas, por exemplo?
Todo início de ano visitamos as mudas plantadas e contabilizamos as perdas (em torno de 8%). Orientamos o morador a podar, a cuidar da muda, adubar, molhar, etc.. Fazemos a reposição da muda uma única vez, se necessário, a pedido do morador.
Qual a próxima meta do ‘Verdejar’?
Nós sonhamos com um parque inclusivo e verde na cidade, e até já temos um pré-projeto ainda não aprovado pelo Executivo para uma parceria Público/Privada em sua realização. Sonhamos com paredes verdes, tetos verdes, florestas verticais. Em alguns anos, quando os carros forem menos necessários, sonhamos transformar algumas avenidas em corredores verdes.
Como são escolhidas as espécies que vão ser plantadas?
As espécies devem ser adequadas ao local onde serão plantadas, levando em conta a largura da rua, a largura da calçada, a presença de fiação elétrica e/ou tubulação no local. Para árvores em calçadas é importante escolher as que desenvolvem raízes profundas (para não levantar a calçada) e que aceitem podas. O preparo do berço de plantio da maneira correta é fundamental para que essas árvores não venham a ser problema no futuro. As distâncias necessárias de postes, esquinas, garagens e lixeiras devem ser respeitadas. Ficamos mortificados com os loteamentos em meio terreno onde não tem espaço para plantio de árvores. Estudos mostram que pessoas que vivem em áreas arborizadas de uma cidade vivem dez anos mais que aquelas que vivem em bairros não arborizados da mesma cidade.
Quais as árvores mais bonitas em Franca, segundo as estações e sua opinião?
São tantas, né? Vou listar algumas delas, que me chamam a atenção e que encantam a todos. Em janeiro, fevereiro e março temos as paineiras e quaresmeiras; em abril, maio, o pau formiga; em junho, julho e agosto, os ipês de todas as cores, mulungus, patas de vaca; em setembro, outubro, novembro os jacarandás, flamboyants, sibipirunas, cássias, resedás.
Olga de Toledo, responsável pelo plantio de flamboayants, resedás, sibipirunas, espatódias e tantos monumentos vegetais floridos nesta estação, tem sido lembrada como pioneira pelos francanos por seu trabalho de vanguarda?
Dra. Olga faz parte do Verdejar e é grande fonte de inspiração. No 5 de junho, dia dedicado ao Meio Ambiente, o grupo Mulheres do Brasil/Verdejar promove uma palestra sobre o tema e faz uma homenagem como reconhecimento a alguém que tenha trabalho relevante na área. Na palestra de 2018 a Dra. Olga recebeu as devidas homenagens.
Qual a próxima grande ação do Verdejar?
A próxima grande ação do Verdejar está marcada para acontecer na manhã do segundo domingo de dezembro, dia 8, data em que a cidade celebra sua padroeira, Nossa Senhora da Conceição. Queremos convidar a população a nos ajudar num plantio de reflorestamento de 3.500 mudas na Mata Ciliar do Jardim Noêmia. Temos um link de inscrição no Facebook, “Verdejar Franca”. Ao se inscrever a pessoa tem acesso a todas as informações deste plantio. Precisaremos de pelo menos 500 voluntários.