À noite, uma agitação incomum tomou conta do porto.
Pela manhã, as redes, vermelho ocre, estavam sendo esticadas, desembaraçadas e costuradas por homens descalços, que curtiam folga das tormentas. Os buracos se escondiam entre as teias dos fios, por isso, era necessário escancelar metros e metros de redes no calçadão do porto. Elas envolviam as embarcações atracadas e pareciam estar sorrateiramente pescando a todos nós, homens e barcos parados a assistir ao espetáculo.
Aquela agitação noturna delatou-me algo estranho. Ao longe pareciam golfinhos empilhados, mas não, a confusão durou pouco porque, ao ver aquela imensa espada, não houve dúvida alguma: tratavam-se de imensos peixe-espadas. Para mim, e acho que para a maioria das pessoas, esses encontros são sempre chocantes. A gente deixa de comer a carne vermelha para não ter que se haver com aquele imenso cadáver mamífero. Fica bem no peixinho, até ver aquela coisa linda, morta no porto.
Ali não tinha mais nada vermelho. A noite permitia ver uma pele azul escuro brilhante, como o esmalte azul profundo de uma marca muito boa que se mostra preto – mas qualquer luz revela o azul marinho. No carrinho de descarga dos navios, os peixes ficavam empilhados, sete, oito, um em cima do outro. Um fiscal conferia seus tamanhos, não havia nenhum filhote. São de uma beleza absurda, em ressonância com o azul do mediterrâneo, em consonância com os templos dos gregos que em odisseias partiram, a tal ponto que não arrisco dizer qual beleza prepondera.
Servem-no em toda a Sicília.
Fatiado na espessura de um dedo, normalmente grelhado, temperado com azeite, sal e salsinha. Não se perde a frescura do mar. E, muito embora o peixe inteiro custe verdadeira fortuna, os talhos finos têm preço razoável. São o orgulho da Sicília e, pelo menos, a quem perguntei, garantiu-me que a pesca continua farta e vigiada.
Mas, inesquecíveis, são os olhos.
Quando os vi, cadáveres frescos, eram duas luas negras saltadas. Pareciam guardar um resquício sinistro de vida. Perguntei-me quanto tempo de calor teria aquela fagulha? No dia seguinte, nas barracas da feira, eles estavam pelas metades. A cada pedido ia-se embora mais um talho e o nariz cada vez mais baixo, como se o corpo fosse um imenso pescoço grosso. Mas, os olhos, estranhamente vivos, pareciam docemente crioconservados.
Seguimos comendo peixe espada, contornado ora por batatas, ora folhas verdes, ora legumes e aceitando os fatos...