As cidades brasileiras crescem desordenadamente. O planejamento é uma lei como qualquer outra: pode pegar, pode não pegar. Densidade populacional excessiva no setor mais vulnerável e, portanto, incapaz de prever uma paternidade responsável. Invasão de áreas que nunca poderiam ser ocupadas. Leniência política sacramentando a nefasta ilegalidade, à luz do “fato consumado”.
Não é fácil administrar a vida urbana brasileira. Muita vez já afirmei que São Paulo – a cidade – é uma insensatez inadministrável. Como pretender que haja qualidade de vida para milhões de pessoas que se espremem num espaço físico insuficiente para as áreas institucionais, para o verde que desaparece a cada dia, para o lazer e para garantir o mínimo existencial?
É um milagre que milhões se levantem a cada manhã, se dirijam ao lugar de trabalho, cada vez mais distante da tosca moradia e voltem ao final do dia, sem rebeldia ou desespero. Tenho elogiado o comportamento do paulistano nas estações do Metrô de que também me sirvo. Massas humanas em sentido contrário, apressadamente, não se atropelam, não se estranham, não se agridem.
A explicação: quem trabalha não tem tempo para manifestações, para agressões, para vandalismos. Estes são atos perpetrados por uma minoria que deveria emprestar o seu vigor para implementar mudanças factíveis. Como melhorar a vida da cidade? Como estancar o gasto desnecessário? Como ajudar a trazer civilidade de volta para esta conurbação inexplicável para um país continental, que poderia atrair pessoas para áreas ainda pouco adensadas, com ganhos reais na expectativa de vida?
Desde que os milhões se concentraram, cumpre tratar essas angustiadas criaturas com dignidade. Propiciando uma cidade limpa, uma cidade verde, uma cidade colorida. O dispêndio com a coleta de resíduos sólidos é um contrassenso cotejado com as necessidades urbanas. Educar a população, leva-la a proteger o patrimônio público e a se tornar uma imensa equipe de eficiente “cidadania jardineira” são ideias singelas, mas que podem mudar o astral da metrópole.
Será impossível? Estamos condenados a viver num clima que mesmo nos dias ensolarados parece plúmbeo e opressor? Sobrou algum estoque de sensatez para o paulistano em 2019?
José Renato Nalini
Reitor da Uniregistral, docente, conferencista e autor de Ética Ambiental