A vida é muito curta. Constatação trivial, cada vez mais convincente para quem se aproxima de seu termo.
Nestas poucas décadas experimentamos muito mais do que cinquenta tonalidades de sentimentos. Aproximamo-nos, apaixonamo-nos, colhemos desilusões, nos decepcionamos. Vamos nos habituando às perdas, cuja coleção aumenta de forma indesejável, mas desmesurada.
Sobrevém aquela angústia de quem não é nutrido pela certeza absoluta de que o acervo afetivo se preservará no etéreo. Os entes mais queridos partiram e não voltaram para contar se existe outro estágio, ou se nos iludimos para poder continuar a viver.
A pressa em registrar emoções, o acerto de contas consigo mesmo. Um exame de consciência para tentar ressarcir os danos causados a outrem, às vezes até desapercebidamente. Por egoísmo, por contingências, por fissuras de caráter.
Algumas das lembranças mais caras vão se diluindo. Já não se consegue precisar episódios marcantes. A insistência em alguns aspectos que não considerávamos essenciais na nossa história pessoal. Completo olvido em relação a outros.
Sinto-me às vezes como broca perfuratriz em busca dos lençóis freáticos da memória. Procuro recompor cenas que me sensibilizaram, mas vem a pertinente dúvida: para que? Ou para quem?
Algum descendente se debruçará sobre os rastros de um ascendente que talvez não chegue a conhecer? Importa à humanidade que se documente um desenrolar de fatos triviais, de uma vida comum, de um ser humano que se considera normal e cuja passagem pelo planeta foi análoga à de milhões de outras criaturas?
Escreve-se, na verdade, para si mesmo. A esperança de vir a ter leitores é cada vez mais remota, longínqua, improvável. Ainda assim, há um chamado irrecusável a que se anote, com a exatidão que se sabe inatingível, tudo aquilo que, mais cedo do que se espera, desaparecerá.
Reelaborar o já vivenciado, recompor o mosaico multifário de uma existência, é exercício de ajuste de contas com o self. Antes que eu me esqueça, ou que já não haja tempo, vou tateando em busca daquele que, embora pasmo seja obrigado a aceitar, este complexo e inapreensível “eu”.
José Renato Nalini
Reitor da Uniregistral, docente, conferencista e autor de Ética Ambiental