A morte de alguns dos mais queridos escritores meus me fez refletir sobre a exposição do autor à frente ou acima de suas obras. Está muito próximo da gente um exemplo insólito que muito bem ilustra nossos tempos. Em 1840, foi lançado o primeiro livro de gastronomia brasileira: O Cozinheiro Imperial. O autor? Desconhecido.
E não se trata de uma coletânea esparsa que alguém juntou depois, não, nada disso. Nasceu como está: um livro, fruto de pesquisa, dedicação e escrita, cuja autoria, naquela época, nada importava. É inquietante. O hoje é desnecessário descrever, a internet ilustra bem – o enorme sucesso de pessoas que simplesmente só se fizeram famosas.
Morreu essa semana Nina Horta. Meu marido me falou: “antes de mais nada preciso dar uma notícia triste: a Nina Horta morreu”. Ela tinha 80 anos e, por conta de uma infecção generalizada, se foi. Qualquer pessoa no Brasil que escreva sobre comida deve tributo ao seu legado. Se sempre gostei de Paraty, com a Nina, passei a fantasiar o éden montanha e mar reunidos no sítio dela com tantas recordações. Amigas virtuais, lembro bem quando ela anunciou a venda desse sítio e me imaginava comprando-o, depois roubando todo o seu talento ao desfrutar das mesmas visões.
Nina começou a escrever na Folha, em 1987. Publicou alguns livros, traduziu outros, recebeu o Prêmio Jabuti de melhor livro de gastronomia e porque sabia cozinhar, pensar e conversar, recebeu em sua casa escritores e personalidades do mundo inteiro. Algo lamentável foi a perda das páginas impressas do jornal para publicar suas crônicas, passando a fazê-lo no site. Josimar Melo, amigo e editor, dizia que “ela escrevia com o coração, com a alma e com uma sabedoria que não conseguia conter nos rígidos formatos de um projeto editorial”. Pois eu queria muito reclamar.
A própria Nina amava a folha da Folha, amava sua ilustradora e dizia que ela era a responsável pelo impulso inicial de leitura de suas crônicas.
Nina é parte da grande transformação pela qual as cozinhas passaram e deixa uma marca inconfundível de refinada intelectualidade e estilo. Embora tenha sido acusada de conservadora, sejamos justos, nem os gênios deixaram de ser filhos de seus tempos. Ademais, seus textos se erguem para além dela.
Amigos e familiares terão suas saudades. Aos outros, caberá reler tudo o que ela escreveu.