08 de julho de 2026

A Visita


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Isabel acordou assustada naquela manhã. Olhou pela fresta da janela e viu que já estava claro. De olhos fechados de sono, procurou perto da cama o relógio de pulso e, com muita dificuldade, conseguiu ver que os ponteiros registravam exatamente seis horas.

Com tristeza lembrou que já fazia dois anos que seu homem estava enjaulado, enquanto ela sozinha tentava sobreviver. Estava absorta em seus pensamentos, quando se lembrou de novo do relógio e consultando-o verificou que já passava das seis e meia. Pulou da cama e caminhou às pressas para a cozinha e passou a arrumar as marmitas de guloseimas preparadas no dia anterior, para levá-las para seu amado.

Enquanto mexia na cozinha, pensava que há muito tempo não tinha um dia de folga. Trabalhava a semana inteira e nos domingos corria para ver seu amor. Este pensamento fez Isabel consultar mais uma vez o relógio, precisava chegar ao presídio antes das oito horas, para não pegar fila comprida. Ao se preocupar com tamanho da fila, lembrou-se da revista. Sentia-se humilhada, mas aguentava por amor.

Com as marmitas prontas, colocou seu melhor vestido, penteou os cabelos pretos e compridos, pintou os lábios, calçou os sapatos, e fechando a porta da casa, ganhou a rua.

Paulão sentado num canto do pátio esperava por ela. Isabel se aproximou e largando no chão as marmitas, pulou no pescoço do companheiro e ficou por algum tempo abraçado com ele, deixando que a saudade que sentira a semana toda fosse embora, pelo menos, por aquelas horas que ficaria ali.

- Como você está bonita hoje Isabel!

- Estou bonita pra você.

- Paulão tirou uma folha de papel do bolso de seu short e desdobrando-o disse:

- Isabel, recebi esse papel lá do fórum dizendo que minha cadeia vence daqui a dois meses. Aí, vou para casa.

- Ainda dois meses, Paulão, estou tão cansada.

- Está cansada por quê?

- Então você não sabe? Quando você está aqui, fico contando os dias para você sair desse inferno. Quando está fora e junta com os amigos, fica na rua. Trabalho o dia inteiro com medo do que pode acontecer. À noite, na hora do meu descanso, você some. Vou para a cama sozinha e fico na espera, de olhos abertos e coração apertado pelo medo. Quando penso que você arranjou um emprego para me ajudar na despesa, recebo a notícia de que você foi preso outra vez. Aí, começa tudo de novo. Conto os dias de trabalho, espero ansiosa o domingo, depois da visita volto para casa, na esperança de que tudo vai acabar um dia.

- Mas agora vai ser diferente. O seu Oliveira não vai me dar o emprego na sua oficina? Vou cumprir tudo direitinho. Aqui não volto mais.

- Espero que tudo dê certo. Seu Oliveira quer nos ajudar.

O tempo acabou e Isabel deixou a prisão de coração aliviado. Perdida em seus pensamentos, levou um susto quando ouviu alguém chamando- a pelo nome. Virou e deu com Júlio na sua frente.

- Olá, Isabel, foi ver seu marginal?

- Júlio, não me aborrece, já falei que não adianta. Amo Paulão e nada vai me fazer largar dele.

- Isabel, você ainda não compreendeu que esse amor não existe? Você vive sozinha. Trabalha para se sustentar e quando Paulão está na rua, o que ele faz? Nada. Você é louca, se contenta com esse amor de conta-gotas.

- Pois é esse que eu quero. Um amor só tem vida quando é vivido aos poucos. Em cada volta, meu amor cresce mais forte.

Apressada, Isabel foi se distanciando, enquanto Júlio ficou ali, olhando a moça que desaparecia no final da rua.