A história de uma moradora de Franca chamou atenção para um problema da saúde pública na última semana. Márcia das Graças Ribeiro, 49, foi até a Câmara Municipal na terça-feira, 9, para denunciar a falta de vagas no Complexo Santa Casa. “Perdi meu noivo, uma vida, por falta de uma vaga na UTI”, afirmou na ocasião. O aposentado Alexandre Martins Martinez, 57, foi ao Pronto Socorro após sofrer um infarto no dia 24 de agosto. Depois do atendimento, Alexandre, que era cardiopata, ficou mais de 12 horas aguardando uma vaga de internação. Ele foi levado para o Hospital do Coração, mas faleceu antes de chegar à UTI. A festa de noivado seria no próximo dia 28 e o casamento aconteceria em 21 de dezembro, na Igreja Quadrangular da Avenida Brasil. “O velório foi na igreja onde íamos casar. Ao invés de entrar lá para casar, recebi foi um caixão”, contou Márcia. Revoltada com a situação, a dona de casa está processando os governos municipal e estadual e organizando uma manifestação contra a situação da saúde na cidade. “Se a gente se calar e deixar quieto, isso passa e o povo esquece [...] Eu não vou deixar esquecer”, disse.
Após a denúncia de Márcia, novas denúncias sobre a longa espera por vagas na Santa Casa surgiram. Aos 80 anos, Liaciria Maria Seco, diagnosticada com pneumonia e infecção de urina e nos rins, ficou quase 24 horas no Pronto Socorro aguardando internação, na quarta-feira, 11. O secretário de saúde municipal, José Conrado Netto, explicou que “quando o hospital de referência está lotado, quem deve dar uma segunda opção para o município é o Estado. E quando não tem o retorno, o paciente fica aguardando transferência. Mas o atendimento é mantido no Pronto-Socorro. Quando o caso é mais grave, urgente, o paciente é encaminhado no sistema “vaga zero”, para garantir o atendimento.” Como foi no caso de Alexandre. Na sexta-feira, 13, Conrado falou no programa Hora da Verdade, da Rádio Difusora, que a superlotação já foi pautada em reunião do Comitê Gestor, formado por representantes da Santa Casa, da Prefeitura, do Estado e do Ministério Público, e que há um projeto em discussão para aumentar os leitos do hospital.
Em nota oficial, a assessoria de imprensa do Complexo Santa Casa reafirmou a necessidade da expansão. “A Santa Casa de Franca atua como referência em atendimento de média e alta complexidade para 22 municípios da região, compreendendo uma população de aproximadamente 700 mil habitantes, dispondo de um total de 290 leitos, dos quais 46 são destinados à UTI, incluindo 18 leitos referentes à ala da UTI infantil. O contrato firmado com o Estado de São Paulo (Gestor do SUS) prevê que a Santa Casa de Franca deve realizar um total de 1.170 internações por mês, no entanto, nos últimos meses tem realizado uma média de 1.600 internações/mês, o que deixa claro que a Santa Casa de Franca está extrapolando em grande quantidade o total de internações. Isso explica a superlotação constante que tem ocorrido no hospital, sendo, portanto, necessária uma ampliação do número de leitos mediante a readequação deste contrato com o Gestor SUS.”
Procurada diversas vezes desde a última quinta-feira, a assessoria de imprensa da Secretaria de Saúde de São Paulo não enviou resposta até o fechamento desta reportagem.