Falas que vêm sendo pronunciadas pelo presidente Bolsonaro e filhos parecem testar a opinião pública sobre os pilares que nos sustentam enquanto democracia
Durante entrevista concedida na década de 1990, logo depois de eleito para mais um mandato de deputado federal, Jair Bolsonaro afirmou ser favorável à tortura e ao “pau-de-arara”, técnica usada durante a ditadura militar (1964 - 1985). Questionado se fecharia o Congresso Nacional caso um dia fosse eleito presidente da República, ele respondeu: “Não há a menor dúvida! Daria golpe no mesmo dia”. E completou: “Através do voto, você não consegue mudar absolutamente nada no Brasil. Só vai mudar quando tivermos uma guerra civil aqui dentro”.
Coerente com suas declarações, mesmo antes de se candidatar à presidência, provocou perplexidade na votação do impeachment de Dilma Roussef ao reverenciar a memória do torturador Brilhante Ulstra, condenado por sequestro e outros crimes durante os anos negros da ditadura militar no Brasil. Há poucos meses, prestou novas homenagens ao falecido, na pessoa da viúva, em cerimônia no Palácio do Planalto. Nessa e noutras ocasiões, fez questão de negar que tenha havido “golpe militar” no País. É uma conhecida forma de tentar reescrever a história do Brasil, com um negacionismo inútil porque são demasiadas as provas documentais.
Já candidato, Bolsonaro explicitou nas redes sociais, plataforma preferida de comunicação com os então potenciais eleitores, apoio à interferência nas instituições brasileiras e nos Três Poderes.
Eleito, durante um discurso improvisado para fuzileiros navais, disse que a democracia e a liberdade dependem da vontade das Forças Armadas: “Só há democracia e liberdade quando forças armadas querem”.
Os filhos demonstram corroborar as ideias do pai. Eduardo Bolsonaro já defendeu que para “fechar o STF” bastaria “um cabo e um soldado”, e que os ministros não teriam poder “na rua”. A afirmação foi feita para alunos de um curso preparatório para a Polícia Federal.
E por fim, mas não por último, pois essas declarações parecem crescer em número e intensidade, na noite da última segunda-feira, o vereador Carlos Bolsonaro afirmou em suas redes sociais que o país não consegue mudar “por vias democráticas”.
Em suma, se o governo foi eleito com promessas de mudanças e tem feito discursos centrados em transformação, que caminhos está planejando para os brasileiros?
Isso preocupa, porque embora saibamos que a democracia não é o melhor dos regimes, as outras opções já se demonstraram bem piores. E aos que acham que isso não vem ao caso, e basta que a economia dê certo, faz bem refletir sobre o fato de que flertar com a ditadura esboroa a confiança dos investidores-internos, externos. É questão de tempo.