05 de abril de 2026

Do barro, o melhor


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Fomos a Rifaina para mergulhar e era segunda-feira. Descemos cedo, com o dia enfarruscado e um pouco de frio, o que não nos preocupou, porque lá embaixo sempre tem sol quente. Não sei agora, mas na metade desse agosto a mata estava cheia de pontos amarelos quente, obra dos requintados Ipês amarelos. Eles me intrigam porque ou a mata pega fogo a volta deles, sempre, ou seus caules são naturalmente um misto de carvão e seiva - mas como são belos seus troncos! Como surpreende correr os olhos por aquelas cascas rugosas e, de repente, chocar-se com as flores delicadas, tintas daquele amarelo jovem.

Já na água, na região chamada Cânions, vê-se um espelho de água quase tão perfeito como o que as águas do Rio Negro fazem na Amazônia. Se a melancolia nos pega, parece que estamos num cenário. Se ninguém nos chama, somos capazes de uma dissociação só para não sabermos onde está a matéria, se no reflexo ou no refletido. O briefing do mergulho do meu marido - em tempo, eu desisti -, dizia que eles veriam muitos peixes. Cascudos enormes grudados pela rocha, cuja raiz está há 40 metros de profundidade. Traíras chafurdadas no lodo do rio, tilápias com estampas diversas, cardume de corvina e mandis. Todos aqueles nomes desfilando pela minha mente foi excitante, parecia que o lago estava oferecendo uma boa quantidade de peixes.

Nós já pensamos em servir esses peixes no restaurante, mas as dificuldades não conseguimos transpor. Eles são selvagens da existência ao paladar, o que dificulta o investimento neles. Desossar a traíra e fritá-la é, de fato, gostoso, mas não supre essa vontade de criar, de fazer algo com esse gosto de barro ou aceitá-lo, até gostar, como o fazem os sertanejos e os índios.

Inúmeras vezes me maravilhei com o peixe do mar assado, servido com legumes tenros e azeite sobrando. Como superar a delicadeza das carnes de uma barracuda? Antes nunca tivesse conhecido. Gostaria de entender o rio e esquecer o mar. Aceitar enxergar curto em tons âmbar em vez da alegria do azul acumulado que nos permite ver há 30, 40, 50 metros de distância. Queria gostar de afundar os pés na lama peguenta e esquecer a areia, que vai do branco ofuscante ao bege cappuccino. Vou preferindo dizer que não dá, que não sei, mas a verdade é que nunca tentei.

Saí para longe, fui buscar um gosto que não era o meu, para deslembrar o que sempre esteve nas panelas da minha mãe. Meu pai, sim, ele ama peixe de rio feito na água, pouco tempero, só sal. Ele come a gordura mole da pele do peixe de rio. Lembro do cheiro nos dedos dele, lembro do colágeno do peixe hidratando aquela mão dura. A coleção de espinhos no canto do prato, ele levava horas para acabar com aquilo. Eu deveria ter ficado ali, eu deveria ter rejeitado o camarão, a lagosta, a vieira, o espada... Para ficar com um gosto que agora poderia ser refinado.