Mais de 5,9 mil quilômetros separam três famílias venezuelanas que desembarcaram em Franca há pouco mais de dois meses do país onde nasceram e, na maioria das vezes, ainda vivem boa parte de seus familiares. A fome, falta de água e energia, além da incerteza do que será do futuro são situações com as quais os venezuelanos precisam conviver desde que uma crise sem precedentes chegou ao país governado por Nicolás Maduro. Há três semanas o jornal Comércio da Franca contou a história de Marlena Coromoto Camargo, 62, que junto com o filho Rafael, 29, o neto Alisson, 18, a afilhada Évelin, 31, e os filhos dela, Namhet Alejandro, 10, Daniel, 6, e Thiago, de 4 meses, moram no Santa Bárbara.
Ao lado dos três filhos, dois irmãos e da cunhada, a venezuela Norka Sifontes, 34, passou aproximadamente oito meses em Boa Vista, capital de Roraima, antes de se mudar, cerca de dois meses atrás, para Franca. Aqui ela divide com a família uma casa que fica no Parque do Horto. “A inflação era muito alta e a economia foi piorando cada dia mais. Já no Brasil trabalhei com várias coisas, vendendo lanches, salada de frutas, água e refrigerante. Consegui juntar dinheiro e buscar meus filhos. Meus irmãos e minha cunhada também vieram”, conta.
“Era uma situação complicada, um salário mínimo era suficiente para comprar no máximo um quilo de queijo ou um frango, ou seja, era difícil até comer. Fiquei alguns meses com minha irmã em Boa Vista, juntamos dinheiro e voltamos para pegar o restante dos familiares. Minha esposa, por exemplo, chegou a ficar dias sem energia e algumas vezes até sem água”, disse Jaison Josniev, 22, irmão de Norka.
Naturais da Ciudad Bolívar, eles deixaram os pais para trás. Na cidade trabalhavam em hotéis e conseguiam ter uma rotina tranquila até a mudança do governo. A escolha pelo Brasil aconteceu a partir do apoio que o país oferece. Aqui, segundo eles diferente do que acontece em outros locais, conseguem tirar documentação e ter uma vida mais normal. Jaison, assim como sua esposa, Joselyn e sua irmã Anny estão em busca de um trabalho. Norka conseguiu recentemente uma oportunidade como cozinheira em um estabelecimento comercial.
Roberto Carlos Aguilar Torres, 25, Cindy Bell Alvarino, 20, além da mãe da jovem, Antonella Aguilar Alvarino, 44, que é deficiente auditiva, deixaram a cidade de Maracaibo quando até alimentar a filha do casal, Alice de 1 ano e 7 meses, tornou-se uma grande dificuldade. “Era uma preocupação constante sabermos se haveria comida, mas tudo ficou ainda mais precário depois que nossa filha chegou, pois ela precisava comer. Ela deixou de beber leite com apenas cinco meses por que era muito caro. Nós, adultos, tinham uma refeição por dia, mas não podíamos submeter nossa bebê a isso”, disse Roberto que mesmo trabalhando em dois empregos não conseguia dinheiro para dar mais conforto para a família.
Enquanto antes trabalhava como auxiliar de prótese dentária na Venezuela, quando a crise se agravou Roberto Carlos passou alguns meses na Colômbia trabalhando com panfletagem antes de vir com a família para o Brasil.
“Eram dias sem água, energia, gás e comida. Uma situação de desespero e tristeza constante. Não há remédios e se uma pessoa fica doente não tem onde ser atendida. Mesmo com casa própria muitos estão optando por sair do país e buscar novas oportunidades. Na Venezuela não há mais dinheiro e as pessoas estão desesperadas e em muitos casos acabam roubando comida para não morrer de fome”, conta Cindy Bell.
Agora os adultos de todas as famílias - além de Norka e Évelin que já conseguiram um emprego - estão distribuindo currículos e buscam uma oportunidade no mercado de trabalho francano.
Há cerca de uma semana outra família chegou a Franca. Trata-se de um casal de jovem, um piloto de avião e uma enfermeira, e o bebê dos dois. Eles foram instalados em uma casa no Jardim Aeroporto.
Mórmons auxiliam famílias na cidade
As quatro famílias, além da que hoje vive em Passos (MG), chegaram até Franca com o auxílio de membros da A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, mais conhecidos como mórmons. Em Boa Vista, onde é mantido um alojamento, encabeçados pelo empresário Carlos Wizard Martins, os voluntários auxiliam os refugiados a encontrar um lugar para viver.
Pensando na adaptação das famílias a igreja custeia, por até 12 meses, o pagamento do aluguel, alimentação, conta de energia e água, além de acompanhar na emissão de documentos, matrículas em escolas para as crianças e na procura por uma vaga de trabalho para os adultos.
Agora as famílias buscam emprego para se sustentarem e também custearem a vinda dos familiares que ficaram para trás para o Brasil. Apesar de contarem com a ajuda da igreja qualquer doação é bem-vinda, seja de roupas, alimentos ou até valores que possam auxiliar a trazer os familiares que ficaram. Os interessados em ajudar podem entrar em contato pelo (16) 99294-5881 com Johceny ou (16) 99382-8092 com José Antônio.