Quero falar de Edson Leite sem usar nenhum ponto de exclamação, ou palavra da moda, e com pouco entusiasmo. A uma, porque ele não precisa desse texto, a duas, porque não gostaria de vê-lo ser incensado pela mídia e, logo ali, despencado, como é tão comum nos nossos dias. Mas é preciso falar dele...
Ele é um garoto da periferia de São Paulo que está fazendo algo digno de nota. Saiu do Brasil sem nada, apenas R$ 600, e se virou pela Europa como pôde, até que a fortuna lhe piscou o olho. Trabalhava na pia de um restaurante e, num dia, dois funcionários, inclusive a chef, faltaram. A dona perguntou-lhe se sabia cozinhar e ele, sem vergonha, piscou de volta - e desde então sua roda da sorte virou.
Ele é ouvinte dos Racionais, é consciente do desperdício de comida, se preocupa com a liberação dos agrotóxicos e reconhece o valor dos pequenos produtores rurais e dos orgânicos. Por isso, ele voltou para a periferia. Abriu uma escola de gastronomia onde, gratuitamente, ensina crianças e as alimenta. Criou um aplicativo, o Rango, que tal qual um catering, ajuda a colocar no mercado periférico os novos formados.
Pode ser, é o normal, que o Edson fique muito conhecido e seja logo alçado aos píncaros da gastronomia e abra seu importante restaurante e continue a dar uma mão nos seus projetos sociais - já seria muito legal. Mas pode ser que o Edson e o seu Jardim São Luiz, com mais de 200 mil habitantes, sejam fortes ao ponto de ameaçar e subverter a lógica. Ele sabe e diz: “Todos os cozinheiros e ajudantes de cozinha dos grandes restaurantes moram na quebrada. ” Ele sabe, a periferia sabe cozinhar.
Ele quer libertar o cozinheiro que existe dentro dos empregados que se deslocam por até 3 horas para chegar aos centros gastronômicos de São Paulo. Ele entende a beleza de se conjugar próximos os verbos: comprar, fazer e servir. Seu restaurante: Sonego Bistrô, faz isso: a regra ali é o total aproveitamento dos ingredientes, inclusive talos e folhas.
Ele tem um livro, o Porque criei a Gastronomia Periférica. Ele aposta tudo nisso. Acha que a periferia criou um novo jeito de se alimentar, uma identidade, como se fosse uma cozinha italiana.
Desejo que se fale pouco e baixo dele, que ele não se desconcentre, não seja cooptado e adicto a viver em meio ao encantamento.