07 de abril de 2026

Evento, por que?


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Lá pelas tantas, depois de mais de dez horas trabalhadas, minha irmã pergunta, não para obter resposta, mas como forma de recriminação: - Por que é que a gente inventa de fazer evento? Digo que não sei, já que nossa vida, no comum, é bastante agitada. Desta vez não trabalhamos no dia da folga que antecedeu o evento, o que já é, por si só, um ganho. Fizemos a lista com calma e antecedência e nos pareceu seguro e compatível a qualidade e quantidade da mão de obra em comparação aos afazeres. Decidimos que não serviríamos cesta grande de pães para estimular o consumo dos pratos até o fim e diminuir o desperdício. E seguimos com a ideia de que o primeiro prato deve ser leve. Fizemos uma escolha ousada, claro que harmonizada com o vinho, que nos deixou apreensivas, porque o prato levava quente e frio. Mas não só por isso: um dos ingredientes foi um ovo mollet e, nosso velho conhecido, sabíamos que seria perigoso.

O ovo mollet é aquele colocado na água que levantou fervura e cozido por exatos quatro minutos, quem já descascou um ovo mollet me entenderá. Delicioso, lindo, penso que fica bem em qualquer cenário. É dificílimo de ser descascado porque, com esse tempo de cozimento, a clara não se firmou ainda. Esses quatro minutos permitem apenas que ela deixe a transparência passando, para o branco, mas ainda é maleável e bem grudada na película.

Segredos para melhorar a operação? Achamos um: furar com um alfinete a ponta do ovo cru. Fizemos o teste, marquei o tempo que demorei para descascar, menos de um minuto. Como teríamos quarenta pratos para montar, precisávamos de quatro pessoas, para que em dez minutos estivessem todos descascados.

O dia chegou, melhor dizendo, a noite do evento. Cozinha em ordem, tudo arrumado, até a louçaria decidida, isso vai com aquilo que leva o paninho, o guardanapo. Deu até para tomar um café. Minha irmã meio ansiosa: “Nossa até que foi fácil, né?”; Eu: “nem teve graça...”. Como se fosse engraçado sofrer.

Então, boqueta a fora: pão de parmesão com patê de pescada defumada. Sucesso, leve, perfeita para aquela forradinha que não deixa o álcool cair sozinho no estômago.

E aí chegou a hora de começar os ovos. Quatro panelas grandes com água borbulhando e cada uma de nós - Eu, Dani, Lelê e Santina - como quatro grandes galinhas velhas a proteger cada qual sua ninhada de dez ovos. Ovos furados pelo alfinete de cabeça azul, achei até um bom pressentimento. Ovos na água, alguns furos começam a dar leve vazamento e um pouco de pânico. Quatro celulares iniciam a contagem de quatro minutos. Ao soar o alarme, a ninhada correspondente é retirada do fogo e atirada na água fria, imediatamente. A Santina descasca nem um, desiste. A Lelê quase chora e sentencia: “não vai dar tempo!”. A Dani deve estar levando três minutos para cada ovo terrivelmente torto. E eu sigo em frente e digo: “Lelê, vai dar! Sempre dá”.

Deve ser para isso que a gente inventa de fazer eventos: para nos testarmos, superarmos e fazer cada vez melhor.

Deu tempo, ficaram lindos. Todas as gemas chegaram moles aos pratos para que os comensais pudessem estourá-las em cima de uma colher de risoto de funghi.

Ufa!