O Dia de Sobrecarga da Terra é o marco em que chega a conta do que estamos fazendo com a natureza. Natureza que sempre foi tida por absoluta, majestosa e inesgotável, e que, para os fora de sintonia com a crise climática e a perda da biodiversidade, dentre outro problemas ambientais, ainda parece ser. É o dia em que, tecnicamente, teríamos que passar a fazer jejum de consumir o que quer que seja, até a virada do final do ano. É o game over da natureza sem outra vida de reserva para jogar por um ano. Daria até para ser lúdico no tratar deste problema, se ele não exigisse seriedade.
O ambiente não tem fronteiras geopolíticas. Na nossa conta bancária mundial, nossas reservas já teriam acabado em 29/07/2019. No Brasil, a data fatal é 31/07/2019. Imaginem se neste dia acabasse o ar que respiramos, a água que bebemos, o alimento que comemos, o que há de mais vital para existir fisiologicamente. A natureza, no entanto, não é tão cruel assim. Ela nos dá um cheque especial. Ela vai se deteriorando aos poucos e ao invés de nos tirar o ar, nos deixa com o ar que nós mesmos poluímos, ao invés de nos tirar as águas, nos deixa com o esgoto que nós mesmos produzimos. A natureza é profissional em nos devolver o que nós fazemos com ela. Não dá para trapaceá-la. Não há tapete na natureza para colocar nossas mazelas sob.
Nesta conta entram todos os recursos que utilizamos para nossas necessidades supérfluas. Tudo aquilo que não precisamos e consumimos para suprir carências, necessidade de aceitação e de pertencimento no imediatismo que a exposição nas mídias sociais nos impõe emocionalmente, supervalorizando o verniz do ter em detrimento ser, no qual só o acolhimento do realismo duro da nossa imperfeição é capaz de nos nutrir efetivamente.
A oferta de bens e serviços é excessiva, tanto quanto a demanda. A quantidade se sobrepõe à qualidade, o excedente perde valor. E tudo que não tem valor é mais fácil de ser desperdiçado, afinal, se não tem valor, que diferença faz se for para o lixo? Ledo engano. O consumo inconsciente, esse desperdício tido ingenuamente por inerte, faz muita diferença. Para o bolso e para o mundo.
Dados da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) apontam que 1,3 bilhão de toneladas de produtos alimentícios são desperdiçados anualmente no mundo, o suficiente para alimentar 2 bilhões de pessoas. No Brasil, 8,7 milhões de toneladas de comida vão para o lixo, enquanto 13 milhões de pessoas passam fome no país. Não é a falta de alimentos que causa a fome no mundo. É a falta de acessibilidade à comida, é o desperdício. Em termos financeiros, se não houvesse desperdício, cada família brasileira pouparia R$ 1.000.00 por ano, segundo a Embrapa.
Por que dar tamanha importância ao alimento na conta do Dia da Sobrecarga? Porque o sistema de produção e o consumo de alimentos são os que mais impactam o consumo de recursos naturais. E, acima de todos os demais bens de consumo, o alimento é o nosso combustível, é o que nos é vital. É o pedaço da conta que qualquer um pode se mobilizar e mudar padrões para colaborar com o planeta. Fica o convite a refletir que é essencial nas nossas vidas e nos nossos pratos.
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