08 de julho de 2026

Ilicitudes


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Alvo de ataque cibernético e de vazamento de diálogos atribuídos a ele com procuradores da Lava Jato, no aplicativo Telegram, o ministro da Justiça Sérgio Moro foi tema recorrente do noticiário durante toda a semana que hoje termina. As mensagens tiradas do aplicativo do coordenador da força-tarefa em Curitiba, Deltan Dallagnol, mostram uma relação pouco ortodoxa dele com o então juiz da Operação Lava Jato. Esta, fato pontual, mostrou ao povo brasileiro as entranhas pustulentas do poder que cedeu à corrupção em níveis até então inimagináveis. E, diga-se a bem da verdade, desvelou a face oculta de políticos de todos os partidos.

Quem vem divulgando de forma homeopática essas conversas entre Moro e Dallagnol é o site Intercept. O ministro reagiu na quinta-feira, em entrevista ao jornal “Estado de São Paulo” dizendo que tudo, até agora, se reduz a “sensacionalismo” e que réus e investigados da Lava Jato teriam interesse no caso. Não reconhece a autenticidade das mensagens e, na entrevista, desafiou a divulgação completa do material. Reiterou enfaticamente não ver ilicitude nos diálogos. E que conversava normalmente também com advogados e delegados, inclusive por aplicativos, por uma questão de agilidade.

Há controvérsias sobre a ética dessa conduta. Um juiz do STF se manifestou a respeito, condenando a forma de agir de Moro, inapropriada no contexto da Justiça como valor absoluto . Um senador lembrou que na maioria dos países considerados democráticos e avançados o comportamento seria inadmissível. Um comentarista político de renome reafirmou para seu público que juiz deve julgar uma causa com isenção, o que significa nenhum relacionamento com o Ministério Público, que denuncia o réu, ou com os advogados, cuja função é a defesa do acusado. É mais que óbvio lembrar a imagem metafórica da Justiça: ela tem os olhos vendados.

Esses argumentos encontram guarida em segmentos diversos da sociedade. Mas a maioria do povo brasileiro, para quem Sérgio Moro é considerado herói, no sentido de que enfrentou com coragem enormes desafios para conseguir punir corruptos e corruptores, parece não considerar uma falha a atitude do então juiz. Comporta-se como quem defende a máxima “os fins justificam os meios”. Esquece-se, talvez, de que o princípio é perigoso, pois pode desvirtuar e deslegitimar julgamentos de grupos e indivíduos, de políticos e pessoas comuns.

Em nosso país, já há algum tempo, lucidez vem se tornando palavra desconhecida. Ou o cidadão está de um lado, ou está de outro, de maneira radical. Isso prejudica juízos, embrutece o raciocínio, afeta a liberdade de pensar. E a cegueira se impõe, de forma avassaladora, porque a realidade exige aguda observação das várias facetas do todo. Não restam dúvidas sobre os grandes feitos de Sérgio Moro na Operação Lava Jato. Mas, os milhões que o idealizaram, e continuam idealizando, devem atentar para o fato de que ele é um ser humano e como tal passível de erros. Erra-se também na ânsia de acertar.