Tempos atrás, a preocupação era literária. Desejava escrever conto focalizando o homem João Batista, personagem bíblico que sempre me intrigara. A intenção exigiu-me pesquisa demorada, vez que as informações dos apóstolos eram por demais sintéticas.
O conhecimento provocou permutas: a intriga foi substituída pela admiração, depois pela perplexidade.
Como entender a vida do homem? Predestinação, sina, azar, sorte, missão, carma, coincidências, dita, destino? Importa pouco o vocábulo e talvez o conjunto seja insuficiente para explicar a trajetória do personagem.
Alguma coisa que não sei explicar me leva a debruçar-me novamente sobre a caminhada do homem.
Imagino o Batista um homem alto, esquelético, subnutrido e, sobretudo, dono de seus nortes. Feitas as pregações, encaminha-se para o Jordão. Conhecendo-as, por certo, tenta quebrar as regras divinas, ser batizado pelo mestre. Humilde, acatou as determinações prévias. Estava escrito.
Preso na Fortaleza de Macheronte, poderia ter morrido de velhice, esquecido, longe do castelo real.
Mas estava escrito. Herodes volta de viagem. Seu aniversário está próximo. Decide interromper a viagem, comemorar o natalício. O único local apropriado é Macheronte. Há festa, todos se embriagam. O monarca se entusiasma com a dança da jovem Salomé, ordena-lhe que peça algo: qualquer coisa, desde que não seja seu reino e será atendida. Instada pela mãe, a mulher pede a cabeça do homem esquecido nos porões.
Palavra de rei não volta atrás, a cabeça do Batista é exibida em bandeja de prata.
Reflito. Creio que João Batista percorreu trajetória previamente estabelecida. Humildemente desempenhou papel de coadjuvante na Grande Ópera, submeteu-se à morte estúpida.
Revejo sua vida, reflito, esforço-me para me libertar da vaidade, aceitar com tranquilidade a função de figurante que me coube nesta vida.