Leitora de biografias, em tempo de Netflix me tornei espectadora de documentários. O canal possui grande acervo, em crescente processo de aquisição de novas obras que nos atualizam ou nos convidam a resgates preciosos. Dentro desse segundo contexto vi na última semana John e Yoko: Só o Céu como Testemunha. Depois de levar o maior susto, diante do fato de que, vivo fosse, Lennon completaria no próximo outubro 80 anos, e Ono se mantém firme nos 87, respirei fundo pensando sem ilusões na verdade acaciana- tempus fugit. E fruí o filme que trata do processo de criação do segundo álbum solo do artista: Imagine. Este é também o título da canção que se tornou clássica, pois cada geração a cantou conferindo novas camadas de sentido.
Em 90 minutos, o diretor Michael Epstein mostra em detalhes o trabalho que durou dois anos, numa bucólica casa no interior da Inglaterra. Ali o grupo de uma dúzia de músicos desfrutava de atmosfera ideal. Mas a jornada foi se tornando extenuante porque todos eram perfeccionistas- a começar de Lennon. Artistas gráficos como David Bailey, Klaus Voormann e Elliot Mintz, que acompanharam a carreira do artista desde o início, e estão vivos, prestam depoimentos reveladores.
Yoko Ono irrompe na cena várias vezes- ora jovem, ora idosa, em imagens inéditas. Da mesma forma o filho único do casal, Sean, hoje com 43 anos. Em certa altura Yoko conta como conheceu o marido em 1966. Radicada em Londres, mostrava em galeria da cidade uma de suas instalações: sala branca, escada no meio, no topo dos degraus uma lupa que instava o visitante a mirar o teto onde um minúsculo “yes” se destacava. Lennon viu ali uma sugestão de aceitação da qual gostou.
Há outras rememorações de Yoko. Ainda menininha, diante dos horrores do Japão bombardeado, acalma o irmão faminto ao lhe descrever um cardápio imaginário que o sustentaria até que conseguissem comida. Era a ficção combatendo a morte, insistindo na vida. Antes dessa tragédia, quando tudo eram cerejeiras em flor, ela se perguntava : se cortasse sementes ao meio e as colasse, unindo espécies diferentes como maçãs e peras, poderia obter árvore que produzisse ao mesmo tempo os dois tipos de fruta? Era a ficção, desenhando outros mundos.
Depois de assistir ao documentário, que parece ter sido criado para desmentir a opinião pública ainda adversa sobre Yoko, somos convidados a uma reavaliação. Sentimos que ela foi injustiçada porque, na verdade, o que se vê em todos os momentos é que seu jeito de fazer arte- como estímulo capaz de mover as pessoas a pensarem por si próprias- desvelou para Lennon um lado criativo que foi decisivo na sua carreira solo. E a presença amena dela ao lado dele parece ter sido catalisadora quando os Beatles se desfizeram.
Só o céu como testemunha é um verso de Imagine: Above Us Only Sky. Em 2017, Yoko Ono tornou-se oficialmente parceira dessa composição. Até então, a autoria era apenas de John Lennon. Entrevista de áudio do artista, descoberta no ano anterior, foi decisiva para se fazer justiça. Segundo ele, “Imagine deveria ter sido creditada como uma música de Lennon/Ono”. Quem assiste ao documentário fica bem esclarecido quanto a isso.