Jane Mahalem, conhecida há décadas em Franca e região por suas atividades no Magistério e nas Letras, e também por seu trabalho como instrutora e divulgadora de Yoga e Meditação entre nós, lançou no último dia 9 seu terceiro livro. Coincidência ou providência, não poderia haver melhor data no calendário das emoções. O nome do quinto mês do ano evoca Mayo, a deusa romana da primavera, do renascimento, o que levou o poeta Ovídio a considerá-lo “o mês do conhecimento”. E é de conhecimento que trata “Sagrado Vazio”: auto-conhecimento e conhecimento do outro. Como “Fresta”, de 1984, e “Cantos D’Alma”, de 1997, é obra que nos fertiliza enquanto leitores atentos aos tempos vivos que a autora registra em clave serena e sábia, e aos quais imprime sentidos de busca, entendimento, abertura para uma vida mais plena de significados e verdade.
A cada página do novo livro, que traz a chancela da Ribeirão Gráfica, os leitores são surpreendidos de repente por caminhos até então impensados; desnudados num átimo de equívocos de antiga gênese; iluminados num triz por epifanias que saltam das “forças maiores escondidas nas palavras”; conscientizados enfim de que a jornada essencial se empreende mesmo é rumo ao próprio interior. Com coragem podemos encontrar quem somos, depois de despojados dos mantos da cultura- sugere a Autora.
Como filhos de uma mesma família - a prosa poética - todos os textos são caracterizados por descortinos que desvelam ora o ser e a transcendência, ora autores de eleição, filmes, compositores, seres humanos que a retina da escritora capturou, o ouvido acolheu, a mente registrou e o coração embalou para que fossem reunidos à sua vasta memorabilia psíquica e espiritual. É desta que jorram os sentimentos mais profundos que através das palavras estruturam a escrita.
Os ensaios soam reveladores de nossa condição humana marcada por interrogações contínuas sobre o ser, tempo, liberdade, limites, precariedade, finitude, angústia, arrogância, humildade, pertencimento... Também nos alertam para a impossibilidade de controlar o que nos cerca, embora às vezes tenhamos “a indelicadeza de nos agarrarmos às nossas pequenas felicidades e nos acharmos intocáveis”, como se lê em “Por que não eu?”
As crônicas, afastando-se do supérfluo, do acessório, do temporário que em geral caracterizam o gênero, mantêm o diapasão reflexivo dos ensaios, dos quais não se elidem a não ser no espaço físico das páginas. Um texto que marca pelo resgate de vozes é “Muitas Almas”: “Temos mesmo muitas almas desencontradas que nos habitam em um espaço-tempo que nos confunde, desafia-nos, faz-nos rir e chorar.”
“Sagrado Vazio” , o título, é retirado de um dos textos, fruto das experiências de Meditação da Autora, que nos esclarece no segundo parágrafo que meditar “é esvaziar-se dos pensamentos. É buscar aquele lugar onde a mente se aquieta, a respiração se aprofunda e o silêncio se instala de um jeito delicado e presente.”
Livros importantes em tempos desalentadores, como os que estamos vivendo neste século conturbado, são aqueles que apontam caminhos de esperança; e quando transformadores, seguem conosco depois da última linha, nos alimentando por toda a vida. Assim Sagrado Vazio.