Referindo-se à reação de alunos, professores e funcionários da Educação que foram às ruas em 188 cidades, em protesto contra a determinação do governo federal de promover cortes de cerca de 30% em áreas do ensino universitário, o presidente Jair Bolsonaro publicou diversas mensagens no Twitter na manhã de sexta-feira, 17. Em todas elas afirmou que existem apenas dois caminhos para evitar contingenciamento de gastos. “Ou imprime dinheiro e gera inflação, ou comete crime de responsabilidade fiscal”. Isso é verdadeiro.
Quem acompanha o noticiário, vê com preocupação os comentários dos economistas, experientes profissionais que municiados de dados recentes têm dito que a economia não reagiu ainda, pelo contrário. Depois de um momento de breve euforia, demonstra caminhar para a recessão; se é que já não estamos vivendo nela. O PIB não é o que se esperava; o número de desempregados cresceu; investidores que haviam sinalizado positivamente há três meses, recuaram.
Mas de nada adianta a Jair Bolsonaro acusar os governos anteriores que lhe deixaram uma herança difícil de administrar. E tem efeito contrário rebater os protestos com linguagem indigna do cargo que ocupa. Chamar de “idiotas” aos que democraticamente foram às ruas manifestar seu descontentamento só piora a situação. Acrescentar o adjetivo “úteis” transforma a fala num quase xingamento, a que ninguém reage de cabeça baixa. A linguagem que o presidente da República dirigiu a milhares de brasileiros descontentes é tosca. O mesmo se diga de sua reação ao MP que questiona um dos filhos numerados de lavagem de dinheiro. Ao dizer que querem “esculachar” seu rebento, faz lembrar o que dizia o jornalista Paulo Francis, em situações como essa: “Basta prestar atenção à escolha das palavras, seu conteúdo e tom, para em poucos minutos saber com quem estamos falando.” O discurso de Bolsonaro é autoritário, não se abre para o diálogo, acaba por instilar raiva nos adversários e causar desconfiança até em parte de seus eleitores, muitos deles professores que apostaram suas fichas no capitão.
Se tivesse mais tato, espírito democrático e capacidade para falar sem ofender os que pensam diferente dele, se entendesse que o jogo democrático pede troca de ideias e abertura à argumentação, o presidente possivelmente conseguiria convencer os descontentes de que não há como solucionar os problemas de caixa do país com um passe de mágica. Os recursos existentes são apenas para pagamentos essenciais, sem os quais os serviços básicos param. Toda a possibilidade de melhoria das finanças reside na aprovação do Projeto de Reforma da Previdência. Isso já foi dito por muitos, mas de forma clara e objetiva pelo mais competente ministro do governo- Paulo Guedes, que tem se esforçado para convencer os parlamentares da necessidade de votar a favor.
Entretanto, em vez de focar nesta questão que é imprescindível para que o Brasil volte a crescer, portanto a gerar empregos e diminuir o número assustador de 14 milhões de desempregados, Jair Bolsonaro se perde em questões miúdas, reage como paranoico ao atribuir todas as causas de suas contrariedades à mídia, mostra-se inábil ao indicar para cargos de alto escalão nomes que não formam equipes e acabam demitidos ou se demitindo em poucos dias ou semanas; e continua achando que conseguirá governar um pais de mais de 210 milhões de habitantes através do twitter. Deveria mudar o comportamento, falando de forma mais amigável e expressando-se com modos menos bruscos, na direção daqueles que podem garantir a votação da Reforma. Porque sem ela, continuaremos encalhados.