Há muito tempo quero escrever sobre algo que observo, mas não tendo cientificidade alguma para me embasar, acabo desistindo. No entanto, lembrei-me que isso aqui é uma crônica e, como tal, deve retratar um instante da vida, um recorte apenas. Para isso, bastam a boa observação ou um sentimento capturado que se pretende passar adiante. O caso é que vocês podem discordar à vontade. Mas acho que os meninos andam perdidos. O fato é que dentre todas as amigas de minha filha, apenas uma deixou o curso que escolheu, a maior parte delas está bem e feliz com as escolhas feitas. Não conheço nenhuma que não tenha conseguido morar sozinha. Tomei conhecimento, por ela, que todas sentem saudades de casa, claro, mas todas enxergaram logo as vantagens de começar a ser donas dos próprios narizes. Ao contrário, vários amigos dela desistiram dos cursos escolhidos, alguns desistiram da vida independente, outros não conseguiram fazer da nova vida algo estruturado, a maior parte deles tem de voltar todo final de semana para a casa dos pais.
E por que raios estou falando disso aqui? Porque atribuo à obrigação do trabalho doméstico a razão de as meninas estarem mais seguras do que os meninos. Em geral, meninos são poupados, meninas menos. Elas ajudam com as compras de supermercado e varejão, conhecem um pepino, um abacate, uma mandioquinha salsa, sabem do que se constitui um cheiro verde, algumas cozinham antes de sair de casa. Várias deixam os quartos arrumados, pelo menos a cama e o guarda roupa. O filósofo Sartre bem deveria ter mandado mulheres e homens racharem lenha...Assisto às crises de mimo de vários jogadores de futebol e penso: o que uma pilha de louças faria por esses meninos...Vejo na arrogância masculina um déficit de aprendizado humano que nós mulheres praticamos há muito tempo.
Mas porque só agora isso se revela uma vantagem? Por que essas novas e incríveis meninas não farão por esses meninos o que vínhamos fazendo até então. Também porque, antes, só fazíamos o que eles deixavam e agora são elas que decidem o que querem fazer e parece que estão a fazer melhor do que eles. Na Noruega, por exemplo, mais mulheres estão fazendo doutorado, as vagas de emprego estão se virando para elas e é preocupante a situação dos meninos furiosos.
Minha filha mora com duas outras meninas, todas mandam bem na cozinha, muitas vezes combinam um jantar coletivo, tantas vezes ela me liga pedindo sugestões que combinem com as marmitas que leva. “Mãe, salada de legumes ou tofu fica melhor com o quibe que você mandou?”; “Mãe, a Bia vai fazer sopa coreana, qual salada fica melhor?“; “Mãe, o grão de bico com bacalhau fica melhor frio ou morno?”; “Mãe, abacate perdendo, fiz torrada, abacate e ovo mole cozido”.
Vocês podem achar que só falei asneiras, ok! Mas afirmo que essa comunhão entre elas, as alimenta espiritualmente e as fazem mais aptas a enfrentar a vida do que quem simplesmente pede uma pizza.