08 de julho de 2026

Palavras que salvam


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Após andar, ver, comprar em um shopping movimentado, sentou-se em uma cafeteria, sozinha, em meio a ruídos de todos os tipos: vozes, gritos, batidas, músicas. E ao esperar por mais de duas horas, um estranho desconforto apossou-se de seu ser. Uma sensação de estranheza, um temor não justificado, um conflito entre sentimentos, uma insegurança apavorante.

Marilda, moradora do interior, tinha acompanhado seu marido, em viagem de negócios à capital e para não assistir às extensas e repetitivas reuniões, preferiu esperar neste lugar, onde ele a deixara e combinara o reencontro.

Mas, a lentidão das horas provocava impaciência, a espera a descompunha, o atraso passara a ser injustificável, a angústia a dominava. Quando sua estabilidade estava prestes a ruir, a um passo de desfalecer, uma senhora caminhou à sua mesa e sentando-se, delicadamente, entabulou uma prosa cativante, com palavras afáveis.

Ana Maria era cheia de vida e lhe contou como se mantinha ativa aos sessenta anos, morando só, pois era viúva de um militar, sem filhos. O segredo era a dança que ela praticava em casa e com seu grupo de amigos, aos domingos. Ela prolongava a conversa, falando sobre amenidades, tentando desviar os sentimentos e pensamentos dela, por ter percebido o tormento e o medo em sua expressão. Era apenas uma alma humana tocando outra alma humana.

Saboreando um pão natural e um café, falou-lhe sobre uma prima que morava na mesma cidade de Marilda e, imediatamente, pegou o celular e colocou-a falando com ela. Uma voz calorosa e amigável, apesar de desconhecida, a saudou e a tratou com familiaridade, atenuando a aflição e o desespero, no qual ela estava mergulhada, até instantes antes. Sentiu-se acolhida por aquelas pessoas estranhas que a animaram e a incentivaram e conseguiu reverter a tensão que lhe causava tanto sofrimento. Um elo de afeto surgiu entre elas, a solidariedade das desconhecidas e suas palavras calorosas a tiraram do seu estado de apreensão. E quando seu marido chegou, pedindo-lhe mil perdões, ela apenas sorriu e disse: tudo bem

Marilda não precisou agradecer. Com espontaneidade, Ana Maria despediu-se, os olhos dela brilhavam, sua face estava iluminada, a vida se mostrava no seu sorriso. Afastou-se, tranquilamente, com passos firmes.