É comum, em todas as cidades, a existência de personagens que ficam no imaginário popular, por serem grandes “contadores de lorotas”. As contam como sendo verdades irrefutáveis. O próprio Chico Anísio, com a sua genialidade, imortalizou a figura do Pantaleão, um contumaz contador de mentiras que eram confirmadas por Terta, a sua esposa.
Em Franca, são também conhecidos os casos pitorescos atribuídos ao “Joaninho Catraca”. Alguns deles já foram retratados, fidedignamente (sem trocadilho), com competência e bom humor pelo Advogado e Professor Dr. Castro Eugênio Liporoni.
Em Cássia, um dos mais conhecidos na arte de contar uma boa lorota, respondia pelo apelido de Abédio (infelizmente já falecido). Um caso memorável por ele retratado relaciona-se à figura do “louro”, um papagaio muito querido em sua família. “Louro” não aprendeu a falar. Em certa ocasião, para tristeza de todos, ele fugiu e não foi mais encontrado. Muito tempo depois Abédio teria ido caçar. Porém, passou o dia todo e não conseguiu abater um único bicho. Já escurecendo e não querendo chegar em casa com as mãos vazias, afinal isso poderia ferir a sua reputação de grande caçador, resolveu matar, a contragosto, um paturi, ave de carne nada apetitosa. Chegando próximo a uma clareira, avistou um bando de paturis em círculo. Percebeu a presença de uma outra ave meio esverdeada, no meio deles, fazendo uma conferência. Os paturis ouviam atentamente. Chegando mais próximo, para garantir tiro certeiro, Abédio teria escorregado, assustando os paturis que voaram em bando. Foi então que Abédio percebeu que o conferencista tratava-se de um papagaio. Com efeito, já nervoso, resolveu abater o pobre papagaio mesmo. Quando preparava a mira da espingarda, segundo ele, teria ouvido o papagaio dizer: Abédio! Abédio! Sou eu, o “louro”! Será que você já não me conhece mais?
Em Cássia ninguém garante a autenticidade do fato, mas Abédio morreu jurando ser verdadeiro. Em outra ocasião, vou contar aos leitores deste Comércio, uma lorota atribuída ao Sr. Espera, outra figura famosa pelos seus causos mirabolantes.