05 de abril de 2026

Feijão e páscoa


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Se falei de arroz na semana passada, não posso passar adiante ignorando justo ele, o feijão, porque o feijão é nossa pátria. Parece-nos que ele não se digere nos jejuns, que não adoça o renascimento anual do sumo sacerdote, mas sim, ele é presença garantida nos lares, nas cestas básicas. É quase das commodities, um balizador seguro do custo de vida do brasileiro. “Catar feijão se limita com o escrever”, dizia João Cabral (bela metáfora que vai já se perdendo pela falta de cascas e penas). Pouco importa a classe de renda, o eixo do sistema culinário do brasileiro ainda é o arroz com feijão.

Se o arroz foi mais custoso para aparecer, com o feijão deu-se o inverso. Desde os primeiros dias da colônia houve feijão trazido da Europa e da África pelos portugueses. O que fizemos por aqui foi acrescentar ao feijão os ingredientes da terra, embora, diga-se, ao que se sabe o índio nunca foi seu grande admirador.

Sitiante estabelecido, a mão da semeadura do feijão foi feminina. Ao redor das casas das famílias plantava-se o feijão do previdente, daquele que estaria seguro mesmo nas mais difíceis privações dos tempos em que a natureza vira inimiga. Em cada rincão desse país juntou-se o arroz e o feijão e tratou-se logo de completar a refeição com o que chamamos de mistura. A mistura era o toucinho, a carne seca, a linguiça, a verdurinha. Do alto de nossos observatórios, conforme nossa localização, podemos dizer que essa vida foi modificada, se pensarmos nas dietas então...

Por outro lado, os grandes centros do país continuam a sagrar essa tradição com os famosos PFs. O que é um Prato Feito senão a combinação do arroz com feijão e a mistura? E ainda o indefectível ovo frito!

Esse hábito, essa combinação alimentar, desafia a pretensão de se globalizar os costumes e prova quão forte é a singularidade da vida. Essa é a comida brasileira, concreta como uma panela, barata e elogiada mundo a fora.

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Mas existe também o comer para o prazer.

Posso estar atrasada, mas quem puder e quiser pode se dar ao desfrute de um ovo de páscoa rosa. O tom rosa seco lembra um antigo glace dos quinze anos. Estou pensando se compro para contar na próxima semana a história completa.

De qualquer forma, com mexido ou Callebault, uma Feliz Páscoa a todos.