08 de julho de 2026

A professora e o ministro


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No domingo, em Dubai, nos Emirados Árabes, foi entregue o Prêmio Global Teacher , considerado o Nobel da Educação. Conquistou-o um professor do Quênia, Peter Tabichi, que ensina Ciências a crianças muito carentes. Uma professora brasileira, Débora Garófalo, que trabalha em escola pública de São Paulo, esteva entre os dez finalistas deste prêmio.(Outro professor brasileiro integrou o grupo dos 50 selecionados). Há mais de quatro anos ela desenvolve o projeto “Robótica com sucata promovendo a sustentabilidade”, que visa a ensinar princípios de Ciências aliados a desenvolvimento de tecnologias por meio de recicláveis. Seus alunos já retiraram mais de 700 quilos de sucata das ruas de seu entrono. E criaram com ela pequenos robôs domésticos, como exibiu reportagem de televisão. Ela demonstrou o que um professor que sente a profissão como dom pode fazer numa região como aquela onde ensina. Sua escola fica num bairro cercado por quatro favelas temidas pelo grau de violência.

Desperta esperança, em quem vê na educação a saída para nossos problemas, saber que a professora obteve reconhecimento internacional trabalhando com alunos muito pobres. Quando não se possuem recursos financeiros, tudo fica mais difícil e desanimador. Por outro lado, parece ser verdadeiro o que dizem os psicólogos: na falta, muitos seres humanos se sentem mais desafiados a criar. A propósito disso, recente pesquisa levada a cabo pelo cientista Leonardo Sales, da Universidade de Brasília, sobre os resultados do ENEM 2017, revelou que os mais pobres podem ser tão bem sucedidos quanto os mais ricos. Dos 4.6 milhões que fizeram o teste, 176,9 mil eram muito pobres; e destes, 293 tiveram pontuação alta e se encontravam entre as 183 mil melhores notas. E mais: dos 293 candidatos pobres com excelente resultado, 154 (mais da metade) eram oriundos de escolas públicas do Ceará.

Atitudes como a de Garófalo e resultados como os obtidos por professores cearenses deveriam ser celebrados pelas autoridades públicas. Não vi uma menção do presidente Bolsonaro ou do ministro Vélez a esses feitos. Aliás, em lugar de estimular, parece que ao ministro apraz mais é desmoralizar , como o fez em entrevista à revista Veja em fevereiro, quando disse que “O brasileiro viajando é um canibal. Rouba coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião, ele acha que pode sair de casa e carregar tudo”. Em três meses no cargo, este professor colombiano brigou com assessores, demitiu funcionários, tomou decisões esquisitas e revelou raso conhecimento do assunto que deveria dominar. O próprio presidente da República disse na quinta-feira, depois de mais um destempero de Vélez, que “ele é novo no assunto, não tem tato político”. Então, por que foi nomeado para um dos mais importantes ministérios do país, que recebe verbas bilionárias e é responsável por aquilo que o país tem de mais importante, seu capital humano representado pelas crianças e jovens?

Talvez só mesmo Olavo de Carvalho, aquele senhor que mora no estado norte-americano da Virgínia, e tem desempenhado cada vez mais o papel de eminência parda do governo, possa responder.