Era domingo e perto do anoitecer resolvi andar de bicicleta com minha pequena. A cada pedalada encontrávamos pessoas reunidas, amigos, professores, colegas de classe da antiga oitava série. Além de cães de rua, verdadeiros vira-latas nos acuando feito presas. E ela, tranquila feito a mãe, como se nada tivesse acontecendo. Já eu, que tenho pavor de cachorros, estava apreensivo e receoso em levar uma bela mordida na batata da perna. Mas como pai não poderia perder o prumo.
Pedalando, apresentando as ruas e as árvores à minha pequenina, cantando músicas para crianças, e ela como sempre sem parar o olhar. Não perdia um detalhe. Na rua Joaquim, próximo à esquina, escutamos o primeiro barulho. Forcei o olhar e vi um aglomerado de gente. Eram sete. Falavam alto, na verdade três gritavam: “mãos para trás...”; “deitem no chão, vagabundos”. Eram as ordens.
Havia resistências. Um sem camisa e de bermuda veio correndo do beco com o rosto coberto apontando para eles: “vai morrer, vai morrer todo mundo”, berrou. Logo pensei na tragédia. Estava presenciando um triste momento. Aqueles três repentinamente se esconderam atrás do gol apontando e disparando. Enquanto os que no chão estavam, correram para trás do fusca azul calcinha. E também, retribuíram da mesma forma com disparos.
O que estava sem camisa parou de correr quando eu passava com minha pequena, desligou as luzes do brinquedo e calou-se interrompendo os disparos. Todos os outros fizeram a mesma coisa, abaixaram os coloridos brinquedos e trancaram a boca não emitindo nenhum som de disparo enquanto passávamos. Mesmo sendo uma brincadeira, eu não fiquei ileso.