Nascido na zona rural de Ibiraci, Matias Taveira tem o varejo nas veias. Desde criança trabalhando no setor comercial, foi no Magazine Luiza que construiu sua mais marcante história. Gerente de lojas em diferentes cidades, batedor de inúmeros recordes de vendas, enche os olhos de lágrimas para repetir a palavra gratidão por toda sua trajetória no Magazine que, quando ele entrou, ainda estava muito distante da magnitude das mais de 900 lojas que possuía quando ele saiu da empresa.
Você nasceu em Ibiraci? Sim. Nasci em um sítio, de parteira. Somos em 7 irmãos.
Seu pai era dono do sítio e vivia da produção rural? Sim. Eu digo para todos que lá tinha fartura, porque ele era trabalhador. Era um pequenino sítio. O que mais tinha lá era amor mesmo. Um casal que recordo e me emociono do carinho, do amor e da maneira como ele nos tratava. As aulas iam começar em Ibiraci, eu falei “papai, não quero ficar na roça. Eu quero estudar e ser alguém.”
Você é o mais novo dos sete irmãos? Sou o terceiro entre os mais novos. E aí, quando pedi, ele perguntou se eu tinha certeza. Eu disse: “tenho certeza, papai.” No outro dia ele me colocou na garupa do cavalo e fomos pra Ibiraci. O primeiro lugar que ele parou foi uma padaria, do Humberto Peixoto. Eu tinha 9 anos e 4 meses. Aí paramos na padaria, descemos e ele perguntou “Helena e Humberto (que eram os donos da padaria) eu trouxe um rapaz que quer trabalhar porque ele tem o sonho de estudar. Então ele trabalha e estuda. Vocês dão oportunidade para ele?”. Eu de calça curta e botininha…
Você trabalhava de manhã e estudava à tarde? Ela não queria me contratar porque eu era muito pequeno, mas eu insisti pedindo uma oportunidade. Aí meu pai disse que eu tinha um irmão mais velho que também iria comigo.
Onde vocês foram morar? Nós morávamos na padaria, num cômodo no fundo. Eu começava a trabalhar as 2 horas da manhã na padaria e parava às 7h. Às 7 horas tinha entregado todos os pães da cidade. Na oportunidade, na porta das casas ficavam os embornais atrás da porta. A gente colocava uma bengala e pegava um vale pão que ficava nessas sacolas. Isso foram muitos anos até eu realmente concluir o ginásio, no caso.
Você trabalhou até a adolescência? Eu e meu irmão depois viemos para Franca continuar os estudos. Minha família continuava no sítio. Na época nós compramos o bar caçula que ficava na Rua Santos Pereira, esquina com o Caetano Petráglia. Meu pai recebeu de herança parte da minha mãe e comprou o bar para nós. Em três meses nós devolvemos o dinheiro e trouxemos os outros irmãos para cá. Fui prestar vestibular em Viçosa em tecnólogo de laticínios, mas o meu amor pela minha mulher (Maria José Carvalho Taveira) que tinha conhecido em Franca há pouco tempo era tão grande que não tive como viver longe. Daí voltei e pedi ela em casamento. Aí minha cabeça ficou diferente e fiquei procurando um novo norte…
E precisava trabalhar… Fui procurar nos jornais e encontrei uma vaga para trabalhar na revista Vogue para vender espaço de publicidade. Comprei um terno e participei do processo seletivo. Tinham 32 candidatos e passei. Eu tive um treinamento muito intenso. (...) Aquilo me deu uma visão muito forte. Só que tinha um problema. Tinha que formar carteira e normalmente receber depois de três meses. A pessoa quer casar…Não dava para esperar… Não tinha muito tempo. Na época, tomando um café na praça encontrei o gerente das lojas Arapuã. Ele falou: “Você vai trabalhar nas lojas Arapuã. Vamos para lá”. Entrei dia 16 de agosto. Comecei a trabalhar dia 18 em 1979. Foi muito intenso, muito forte.
Você gostou muito? Já fiquei em segundo lugar entre 14 vendedores. Na verdade com 12 dias de trabalho. Foi assim, uma explosão. No segundo mês já fiquei em primeiro, depois fui destaque nacional, tenho até num jornal. Fui premiado e logo depois por três dias eu era vendedor interno e três dias eu era vendedor atacadista. Fazia Araxá, Sacramento, Ibiraci, a região toda. Eu viajava e fazia as vendas.
E quando você casou? Estava determinado. Quando eu casei, minha casa estava mobiliadinha. Casei dia 17 de maio de 1980.
Quando entra o Magazine Luiza na história? Aí eu tive aquela explosão de vendas nas lojas Arapuã e participava em São Paulo como vendedor atacadista. Recebi muitos prêmios na época. Aí meu primo falou: “Matias você é o maior vendedor, mas o ideal é você assumir uma loja como gerente”. Mesmo antes de casar eu recebi o convite para ser estagiário para gerente.
Nas lojas Arapuã? Sim. No final desse ciclo, eu já viajando. Era difícil. Minha mulher me acompanhou. A primeira cidade que fui foi para São Paulo, depois Bragança Paulista, Rio Claro, Araçatuba. Quando eu estava Araçatuba nasceu meu filho mais velho.
Ele nasceu lá? Não, viemos para Franca. Foi um período muito difícil para mim. Eu queria ficar com a minha mulher e não podia. Naquela época não podia faltar. Não tinha um tempo de licença como tem hoje. Eu fui embora chorando no ônibus. No outro dia cedo, tinha reunião na loja. Minha mulher com 20 dias após o parto também foi embora comigo. Logo depois vim para Franca e assumi a loja do Centro, na antiga Pernambucanas. Era ali que funcionava as lojas Arapuã. Mas aí o gerente regional veio e disse que queria que eu fosse para Araguari. Um certo dia eu cheguei para trabalhar, um gerente que trabalhava nas lojas Arapuã estava na loja. Cumprimentei ele, que me falou; “tem uma pessoa aqui que veio para falar com você”. Era a Luiza Helena (Trajano).
Ela foi até a loja para fazer o convite? Foi. Fiquei muito feliz. Ela foi bem enfática. Estava colocando a gravata, voltando do almoço e ela me falou assim: “Eu vim te convidar para fazer parte do time do Magazine Luiza que eu estou formando. Você foi uma pessoa escolhida. Mas eu quero que você me dê a palavra, está fechado e acabou”. Foi maravilhoso. Eu cheguei gritando para a minha mulher ,que lembrou que eu estava bem nas lojas Arapuã, mas eu expliquei: “É uma empresa da minha terra, tem a filosofia de varejo na veia, eu vou topar mesmo. Eu vou mesmo.
Que ano foi isso? Em 1982.Começo do ano. Quando foi na quarta-feira, o senhor Onofre Trajano foi até Araguari e acertamos. Aí eu vim trabalhar na loja do Centro. Passei por todos os departamentos, fiz relatório de tudo, ela questionava tudo.
Você também passou por várias lojas? Sim. Comecei em Franca no processo de aprendizagem e depois assumi a loja de Araguari.
Aí começa sua jornada no Magazine Luiza? Começa minha jornada no Magazine Luiza. O varejo é muito desafiador. Na oportunidade, tínhamos muitos concorrentes. Na época, as lojas dos grandes centros tinham um poderio muito grande. Na época tinha muitas dificuldades para vender a prazo.
Era uma época de crediários... Era muito diferente. Quando começamos era tudo manual. Depois que entrou o computador.
Qual maior desafio que você lembra de ter enfrentado naquela época? Era muito forte precificar um produto duas vezes ao dia. Era uma inflação gigantesca, na época do Cruzeiro. Era muito veloz, tinha que vender, tinha que acontecer… Era uma loucura.
Como era trabalhar com a Luiza Helena Trajano? Era extremamente desafiador. Você tinha que estar no nível e no entendimento dela para que você colaborasse. Toda vida ela foi muito enfática naquilo que ela queria, muito pragmática. A visão dela toda vida foi de que, naquilo que se faz, teria que ser realmente o melhor. Buscando sempre a simplicidade, a transparência. Eu falo que foi um privilégio e eu sou eternamente grato. Eu falo que vai ser além da minha vida o amor, o respeito, a gratidão pelo lado forte de vida que tive dentro do Magazine Luiza.
Quais foram os momentos mais marcantes? Primeiro era essa ousadia em trabalhar. Porque ela (Luiza Helena) tem essa capacidade de mobilizar pelo “objetivo-fim”. Essa capacidade é algo extraordinária. Outra forma muito intensa, era que problema quando existia, era preciso ir na raiz da raiz. E nunca justificar. Além de mostrar a superação. A superação é uma marca muito forte do Magazine Luiza.
O que você acha que há de diferente no Magazine Luiza. Porque, diferente da própria Arapuã, o Magazine explodiu… Gestão. Ela foi determinante para que isso acontecesse. Se chama: Luiza Helena. Magazine Luiza, a partir de quando a Luiza Helena assumiu, ela quebrou todos os paradigmas que existiam. Ela criou um formato de gestão muito intenso. (...) Esse formato de ela acreditar.
Quando você entrou, não haviam tantas lojas… Tínhamos a loja do Centro, que era menor; Nós tínhamos a loja de Barretos, que era pequena; a loja da Avenida Brasil; nós tínhamos a loja de Araxá, que era uma casa. Na época, vendia em peruas. Nas cidades da região, eram peruas de vendedores autônomos. Uberaba e e Araguari.
Fazendo um salto, quando você sai, o Magazine tinha quantas lojas? Eu brinco dizendo que, quando entrei, lojas de vendas mesmo eram quatro, para 900. Eu vivi todos os ciclos. Esse que foi o grande desafio da minha vida, foi ter essa vivência, essas experiências, ter a adaptação, porque dentro do Magazine Luiza uma das filosofias mais lindas e mais fortes é que tudo se transforma, se ajusta ao melhor para o bem comum. Foi quando, em 1991, criamos a filosofia: ser uma empresa que visa sempre o bem estar comum.
Você sempre escolheu estar em lojas. Nunca quis estar no escritório? Eu tive a oportunidade. Eu fui regional por 4 anos e 7 meses. Assumi essa responsabilidade. Recebi o convite para assumir a região de Londrina e, na oportunidade, eu sonhava em voltar para a minha cidade de Franca, que eu tanto amo.
Por quantas cidades você trabalhou pelo Magazine Luiza? Eu fui gerente em Araguari, Uberaba. De lá fui para Campinas, em 1991. Fiquei até 2000, quando assumi a loja do Centro de Franca. Depois fui para o Shopping e voltei para a loja do Centro e finalizei agora na loja da Estação. Foi em Uberaba que fiquei como gerente regional.
Como foram as liquidações fantásticas? Eu tenho filme que mostra que não ficou nada (na liquidação em Campinas). Só ficou a mesa do gerente. Vendeu tudo da loja. Nós paramos Campinas. Paramos tanto que não consegui dormir. Chamei o comandante do Batalhão, ele foi na loja e falou assim: “Só na oração”. Porque era muita gente. Foi a coisa mais intensa.
Tem ideia de quantas pessoas participaram? Foi tão forte, tão grande, que o Calçadão da Treze de Maio não cabia uma pessoa. Na época, foram cerca de 35 mil pessoas na loja. Era uma loja muito grande.
Qual a cidade que você viveu que sentiu que foi o período mais intenso? O mais forte foi Campinas. Quando assumi, era uma loja deficitária. Foi um aprendizado como nunca na minha vida. Eu já tinha sido regional, inaugurado uma loja linda em Uberaba, com tudo, até lanchonete. Naquela época, entendia que já dominava tudo. O Magazine já estava com suas 30 lojas. Mas o desafio de Campinas foi muito grande.
Seus filhos cresceram em Campinas? Sim. Até hoje têm amigos de lá. Para o Magazine Luiza, Campinas foi um divisor muito grande. Até então era regional, em cidades menores. Tínhamos 220 funcionários na loja e tínhamos que adaptar a cidade à loja. Eu vou confessar: orei muito, rezei muito, me enchi de humildade. Começava trabalhar 6 horas da manhã e parava às 10h da noite. O custo da loja versos a venda e o lucro, não fechava a conta. Mas essa ousadia da Luiza Helena, ir na exaustão para descobrir o norte, lá foi uma grande escola.
Como ficou no final? Foi antes. Não podemos ficar muito tempo sem dar resultado. É superação. É crescimento em cima de crescimento. Isso que fez a empresa ser o que é. Nós revertemos o quadro porque a Luiza Helena foi até lá, a Isabel, uma equipe de diretores da época, aprendemos com uma equipe de funcionários juntos. Tiramos setores que não estavam dando resultado, trocamos a equipe que não estava no padrão de resultados que queríamos e, a partir daí, foi uma explosão. Fomos loja destaque. Ganhei prêmios, fui para Aruba como o gerente que mais vendeu, com mais 8 funcionários da loja que eram campeões de venda.
Você viajou muito com o Magazine Luiza? Viajei. Recebi um prêmio em 2004, quando fui o gerente de melhor performance, o prêmio Luiza Helena. Eu poderia levar a família e pessoas que queria. Fomos em 8 pessoas e levei a minha mãe. Fomos a Salvador. Minha mãe nunca tinha andado de avião, conhecido praia. Foi um sonho que me emociona até hoje. Foi o prêmio da minha vida. Foi maravilhoso. Carrego com muito orgulho que bati todos os recordes. Produto que mais vendeu em um só dia em Campinas: 1029 guarda roupas em um só dia, em uma só loja. Imagina depois, entregar, montar… Bati recorde de patins. Na época foi uma explosão. Vendi 1243 patins na loja de Campinas.
Como foi voltar para Franca? Eu senti que precisava viver perto da minha família, minha mãe. Quando me ofereceram para ir para Londrina, eu falei “quero viver próximo a mamãe que não convivi nada com ela, desde criança”. Ela já estava velhinha. Eu já tinha perdido meu pai. Queria viver perto dos meus irmãos, principalmente da minha mãe. Daí coloquei a missão de voltar para Franca. Quando me ofereceram, eu vibrei. Na ocasião, haviam decidido tirar o setor de confecção em várias cidades. Na época o controle era muito difícil, porque era tudo manual.
Sua passagem pela loja do Centro de Franca também foi muito marcante… Quando vim para a loja de Franca nós iríamos fechar o setor de confecção. Já tinha sido decido. Eu fiquei sem dormir. Falei: “poxa vida, aqui respira Magazine Luiza, aqui tem que pulsar Magazine Luiza e decidi lutar para não desativar o setor”. Eu reuni os vendedores do setor, colocamos um cadeado e fechamos entre nós que iríamos dobrar a venda, encher os olhos da diretoria e mudar o patamar. Na oportunidade, eu aumentei três vezes o valor que era a meta na época.
Venderam? Vendemos. Foi maravilhoso. Oferecemos para nossos parentes, amigos, fui para a rádio, para o jornal e, principalmente os funcionários fizeram a diferença. Fui na dona Luiza Trajano, na Luiza Helena. Ela olhou bem em mim e disse “Matias já tínhamos decidido pelo conselho, mas vamos voltar atrás, pelo seu empenho, pelo empenho da equipe e porque você mostrou mais uma vez sua capacidade de superação e foi muito bonito.”
Até hoje funciona? É a única loja que tem confecção da empresa.
Como foi se aposentar depois de toda essa história? A vida é feita de ciclos e temos que ter maturidade, entendimento que tudo tem um ciclo. Confesso que quando fui mexer com política, fui pelo Magazine Luiza. Eu passava pela praça e não estava legal. Calçadão sujo… Eu falei “isso não pode ser assim, vou me candidatar a vereador”. Foi uma decisão impensada, mas de coragem.
Como foi a experiência? Com essa situação de ir e ter esse desconforto por não ter sido uma unanimidade, a empresa me aconselhou para que eu me afastasse e eu me afastei. Não consegui o tento de ser eleito. Tive 627 votos. Aí tomei uma decisão. O que vale na vida é a coragem de experimentar, pagar o preço. (...) Só que dentro da minha própria empresa eu não fiz a campanha que eu teria que fazer, que lá é meu nicho. Aí fiz fora, o que é muito complicado.
Você pensa em disputar outra vez? Eu tenho um projeto. Agora estou em miniférias. Já faz bastante tempo que sou aposentado, mas no nosso país é complicado parar. Eu deixei de trabalhar no Magazine quando fiz duas cirurgias num só dia. Eu sentia muita dor, fui para o hospital e o médico disse que tinha que fazer uma cirurgia urgente para retirada de uma hérnia inguinal e de uma hérnia no umbigo. Quando eu estava indo para a mesa de cirurgia, tomei a decisão: viver a família. Meus filhos já cobravam para eu parar, eu falava “o Magazine Luiza é a minha vida. Não sei viver sem o Magazine” e minha mulher falava que eu só sairia na alça do caixão. Essa palavra me veio à cabeça.
Terminada a cirurgia decidiu sair do Magazine? No segundo dia de recuperação em casa escrevi minha carta para a Luiza Helena agradecendo. Era doloroso, mas meu ciclo tinha que se encerrar.
Agora, como está curtindo a família?
Uma verdadeira de lua de mel. Ainda tenho o hábito forte de acordar muito cedo, de ver o sol nascendo. Mas estou curtindo meus seis lindos, lindos netos.