08 de julho de 2026

Tempo quente


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Os inimigos da ciência são muitos, neste século tão beneficiado por ela. Há pessoas que não acreditam que o homem colocou os pés na Lua e defendem a ideia de que tudo aquilo foi armação fake dos norte-americanos para atrair a atenção e conquistar mais poder. Há outras que não admitem a ideia de que os seres humanos são hoje fruto de uma evolução que não cessou e os conforma paulatinamente para diferentes características aqui a alguns milênios. E há aquelas que frente a muitas evidências científicas negam dados concretos que apontam para o aquecimento do planeta.

Neste terceiro grupo inclui-se de forma explícita o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, entrevistado no começo do ano pelo programa Roda Viva, da TV Cultura, onde não soube citar um título sequer que tivesse lido sobre questões que têm tudo a ver com sua pasta. Naquela altura ele já havia extinguido os departamentos e secretarias de seu ministério que tratavam da mudança climática, argumentando que sua prioridade não era discutir como estará o mundo daqui a 500 anos e sim “o Brasil de amanhã.” Como se nosso país fosse um planeta a parte...

Esse Brasil desenhou-se muito líquido na frente do ministro dias depois, quando primeiro o Rio de Janeiro, depois a capital paulista, foram atingidos por temporais que mataram pessoas, soterraram casas, derrubaram centenas de árvores, interditaram vias, destruíram carros. As enchentes deste verão foram apenas mais um capítulo no histórico recente dos fenômenos climáticos. Em 2017 tivemos o recorde de queimadas; em 2015, a crise hídrica; em 2010, a inimaginável seca na Amazônia... São fatos que incidem sobre nossa vida, diretamente. Por exemplo, em fevereiro, a Associação dos Produtores de Soja e Milho anunciou que a safra de 2019 será aproximadamente 14% menor que a do ano passado, por conta dos problemas climáticos em 12 estados brasileiros.

Obviamente, não se deve apenas à força da natureza o cenário de destruição. Existem, entre outros, o fator cultural- pessoas atiram lixo nas ruas e entopem bueiros; o fator político- a infraestrutura não recebe dos governos a atenção devida; o fator ambiental- os desmatamentos em larga escala. Mas é inegável que desde que nós, humanos, a partir do começo do século XIX, começamos a poluir a atmosfera com os gazes que produzem o efeito estufa, a temperatura vem subindo sem cessar. O Acordo de Paris, assinado por 200 países há cerca de três anos, pretendeu limitar o aquecimento a 2ºC. Dados os poucos avanços dos próprios signatários, e a má vontade dos que boicotam a missão, já se prevê uma meta de 3°C. É um dado pessimista, porque segundo climatologistas, se a humanidade chegar ao final deste nosso século com 4°C de aquecimento, enfrentará catástrofes maiores que as já vistas porque atingirão todas as dimensões da existência. Poderá ser o fim da vida no planeta, tal e qual a conhecemos ainda hoje.