Nós, brasileiros, temos vivido maus dias desde que o ano começou. Mal as labaredas do incêndio do Museu Nacional transformaram em cinzas grande parte da nossa memória, veio a catástrofe de Brumadinho, nome que se deu ao rompimento da barragem de dejetos administrada pela empresa mineradora Vale, uma das maiores do mundo. A avalanche de lama escapou das estruturas de contenção e cobriu casas, envenenou rio, matou centenas de pessoas- adultos e crianças. Decorridos quase dois meses, a se completarem do próximo dia 25, ainda restam soterrados corpos que talvez nunca mais sejam encontrados, por hercúleo que continue sendo o trabalho dos bombeiros.
Ainda sob o impacto da destruição na cidade mineira, dez jovens atletas morreram na madrugada de 8 de fevereiro, carbonizados no Ninho do Urubu, um centro de acolhimento mantido pelo clube de futebol mais rico e de maior torcida no Brasil- o Flamengo. Abrigados em contêineres improvisados, os rapazes foram surpreendidos no meio da noite por um curto-circuito nos aparelhos de ar condicionado, o que provocou as chamas letais.
Dias depois, enchentes no Rio e em São Paulo assustaram o país pelo seu grau de violência e destruição. Moradias frágeis desabaram nas periferias; mas outras em bairros nobres também sofreram com inundações. A água não respeitou status de ninguém. Os prejuízos foram enormes em áreas comerciais. E, o que é de cortar o coração, crianças também morreram quando casas desceram pelas encostas dos morros cariocas
Quando se pensava que enfim teríamos uns dias de trégua, e até respirávamos com certo alívio ao vermos presos os assassinos de Marielle Franco, na manhã da última quarta-feira um adolescente de 17 anos e um adulto de 25 entraram mascarados numa escola pública da cidade de Suzano, dispararam a esmo, mataram cinco alunos, a coordenadora da escola, uma funcionária. Feriram onze. Antes haviam abatido a tiros o dono de uma revenda de carros. Por fim, o mais novo matou o mais velho e depois se matou. Até agora nada foi esclarecido a respeito das motivações que levaram a esse massacre. Entre suspeitas de bullying e a importação da cultura de violência dos jogos de videogame, as investigações caminham nas nebulosidades de um caso complexo.
Dizem que depois de vivermos uma tragédia, precisamos fazer a catarse, fase que só se concretiza quando as fúrias são banidas. Não temos tido tempo para cumprir esse processo. Assusta pensar que ainda estamos nos “idos de março” como os romanos chamavam à primeira metade do mês, que para eles foi também trágica.
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