Ao contrário do que costumo fazer, chego até a ilha do café, encosto a barriga no balcão e peço um café. Não é do meu agrado beber café assim, na correria prefiro não tomar. Mas o lugar estava próximo, o tempo curto e alguém o recomendara. Uma atendente extremamente simpática me abordou e fez perguntas que não combinavam com a simplicidade do ambiente. Mas minha coisa era tiro curto, melhor, era espresso com espuminha de leite ou café machiato, não sabia bem qual seria a denominação, embora eu saiba que eles não são a mesma coisa. No fim das contas, ambos tem um leitinho que ameniza a bravura de um espresso puro. E, se há alguns anos, um café preto sem açúcar me parecia coisa de louco, hoje se tornou tão natural que, do dia para noite, parece que todo mundo resolveu fazer o mesmo.
Portanto, disse que não queria açúcar e ela me perguntou: e rapadura?
Achei aquela pergunta tão carinhosa que simplesmente não consegui raciocinar a condição açúcar da rapadura e aceitei com entusiamo. Escolhi, com um pegadorzinho plástico, o maior pedaço de rapadura do pote. Para além da relação óbvia da rapadura e o Nordeste de meu pai, havia naquela combinação algo profunda, vinda de uma oralidade que eu esquecera.
Não seria possível que eu estivesse lembrando do café de rapadura, quando ferve-se a água, acrescenta-se pedaços de rapadura para serem dissolvidos nela e, então, despejar essa água adoçada ao coador com o pó de café. Ou mesmo do café de garapa, fervida com o pó de café e coado em seguida. Impensável que eu soubesse do café da manhã composto de jacuba e café preto, forte e muito doce. Nesse caso, os grãos são torrados até ficarem pretos, com amargor pujante e o açúcar acompanhando a torra, e depois pilados.
O café tem uma estranha condição de elegância. Ele está presente nas casas mais simples do Brasil, é item obrigatório das cestas básicas e está ao alcance dos humildes salários. Mas é agregador e não raro repousa em xícaras, em bandejas ou toalhinhas de croché que nos dão mais do que realmente são.
Floriza Barbosa Ferraz foi esposa de um grande fazendeiro de café, deixou um livro de memórias onde descreveu a vida de seus vizinhos. Alguns, sitiantes nômades, sem eira nem beira, só esperavam o esgotamento da terra para ajuntarem os trem e se irem. Já outros, detentores de uma pequena e incipiente plantação de café, eram tidos por gente de fino trato e, com isso, foram associando o café aos nomes e sobrenomes.
Não mudei de ideia, continuo firme no café sem açúcar, mas pode ser que de vez em quando eu ande a escolher nacos de rapadura.