08 de julho de 2026

Pisão no tomate


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Todos nós, humanos, temos nossos momentos de ruindade. Aqueles onde fazemos as coisas por impulso (ou ignorância) e depois nos damos conta da irreversibilidade dos fatos que protagonizamos. Se eles dizem respeito a registros escritos, o mal se torna muitas vezes irreversível. Não é à toa que o provérbio latino Verba volant, scripta manent se mantém com atualidade. E mais ainda nesses tempos onde a comunicação está se fazendo majoritariamente pelas redes sociais. As palavras faladas voam, as escritas permanecem. Mesmo depois de editadas, emendadas, deletadas. Tudo está na nuvem, sabemos.

Isso posto, Jair Bolsonaro, eleito por milhões de brasileiros nas eleições do último outubro, viveu na terça-feira de Carnaval um desses momentos ruins de inadequação verbal, que vem caracterizando seu desempenho como presidente da nação. Desta vez, compartilhou com seus mais de três milhões de seguidores, formados majoritariamente por famílias que se perfilam pela pudicícia, um vídeo pornográfico no twitter. O fato causou rebuliço. Afinal, ainda não nos desacostumamos da liturgia do cargo à qual todos os presidentes desde Marechal Deodoro se submeteram. O Chefe da Nação revelar comportamento tão inusitado na Internet levou à manifestação contrária até simpatizantes de seu governo, eleitores que o levaram ao Palácio do Planalto, a mídia nacional e internacional. O presidente pisou no tomate. Foi tão ruim o efeito que o mercado financeiro reagiu negativamente .

O que tem a ver um vídeo obsceno compartilhado pelo presidente da República com a vida financeira do país? Tem a ver com reversão de expectativas. Investidores aguardam, desde a eleição de Bolsonaro, tomada de decisões que garantam um mínimo de estabilidade econômica e sinais de que as sangrias do tesouro serão estancadas. Neste sentido, foram muitas as reformas prometidas em campanha pelo candidato vitorioso. Há poucos dias, ele levou em mãos ao Congresso o texto da Reforma da Previdência, que se não for aprovado neste semestre poderá acarretar transtornos sérios num futuro próximo. O número de desempregados continua alto, na casa dos 13 milhões; a atividade econômica não se acelerou na medida em que se esperava no período pós-eleições; há problemas que gritam por solução nas áreas da segurança - e o “pacote Moro” é o segundo item na pauta de prioridades.

Esperava-se que durante o período “momesco”, para usar um adjetivo do presidente, ele estivesse focado em pelo menos um dos muitos problemas que prometeu resolver. Em vez disso, foi para a Internet, compartilhou imagem bizarra com a qual pretendeu desqualificar nossa mais democrática e bela manifestação cultural que é o Carnaval de rua. E exatamente quando deveria comemorar com o povo brasileiro, pois poucas vezes se viu no Brasil uma festa tão bonita, com escolas de samba politizando seus temas com conhecimento de causa, sabedoria, sensibilidade e crítica social. Talvez esse último aspecto tenha desagradado o presidente, que precisa, com urgência, desacelerar sua presença no twitter e ligar o modo “governar”. Para isso foi eleito.


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