O Brasil é uma mistura. Desde seus primeiros momentos. Somos hoje a mistura dos povos indígenas, africanos, portugueses, italianos, asiáticos. Caminhar por uma rua movimentada em uma grande cidade brasileira é navegar por um mar de diversidade. No Carnaval, então, isso fica ainda mais evidente. Mas, ao analisar com profundidade, essa não é uma exclusividade do nosso país tropical.
A própria natureza no planeta Terra providencia uma mistura fundamental. Uma série documental produzida pela National Geografic, chamada One Strange Rock, e em exibição pela Netflix, trata do assunto visto sob a ótica de astronautas, cientistas e ecologistas de diferentes países. No sexto episódio que trata da morte, os especialistas chegam a uma conclusão interessantíssima. Para garantir a continuidade das espécies, uma receita é seguida por nosso planeta: a mistura. “Clones têm um problema. Se todo indivíduo for exatamente igual, uma única doença, uma única catástrofe poderia extingui-los. Então é preciso misturar um pouco”, explica o apresentador da série, o ator Will Smith.
No Caribe, uma cultura de corais que se espalham nas profundezas do oceano é um exemplo. Apesar de terem a habilidade de fazerem clones de si mesmos e se espalharem pelo recife, eles também se protegem contra a alteração do ambiente se acasalando. Uma vez por ano, durante uma lua cheia, os corais liberam ovos e espermas em quantidades enormes, transformando o fundo do mar em uma espécie de constelação submarina. O objetivo é criar a possibilidade de acasalamento com outras espécies de corais e gerar mais diversidade para as gerações seguintes. O resultado são corais impressionantes, de cores e formatos incríveis. É assim que os corais têm sobrevivido a todas as mudanças de clima e ambiente por mais de 250 milhões de anos.
Apesar da milenar sabedoria da natureza, os humanos ainda insistem em lutar contra a diversidade. Para muitos ainda é insuportável a ideia de conviver com pessoas de credos, hábitos, pensamentos divergentes. Grupos que ainda se fecham para atacar os diferentes. Motivos não faltam. Sejam religiosos, questões sexuais, políticas ou de raça. Ainda vivemos numa sociedade que tem extrema dificuldade em ver a beleza da sua própria diversidade.
O Carnaval é um feriado perfeito para observar esse fenômeno. Há quem prefira um retiro para evitar o agito; quem vá curtir o feriado no sofá de casa; há quem goste de assistir aos desfiles pela TV ou até quem goste mesmo de cair na folia e, mesmo entre esses, quem ame escolas de samba e quem prefira blocos. Seja qual for a opção, o ideal será chegarmos a um momento em que nenhuma delas seja vista como um problema pela outra parte.
Afinal, como dizia até mesmo o Bispo Dom Hélder Câmara, durante uma crônica na rádio em 1975: “Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no Carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o Carnaval. Brinque, meu povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que na quarta-feira a luta recomeça, mas ao menos se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida!”. Afinal, como dizia o bispo, na quarta-feira toda a luta recomeça, assim como nossa constante caminhada diária na busca pela aceitação da nossa própria diversidade.