O terreirão de café era alto, imenso, ladeado de escadas construídas com pedras gigantes terrivelmente assustadoras, mas ao mesmo tempo, fascinantes e convidativas.
Eu e minha irmã procurávamos ir até lá sempre que minha mãe se distraia. Íamos como se fosse a uma aventura. Até chegar ao topo havia a estrada que cortava a fazenda e que se dirigia a cidade, havia os carros, os bois, as pedras gigantes, a poeira e no fim disso tudo, havia o desafio.
Após a subida, corríamos e lá no final do campo ficava o caminho coberto de plantas adocicadas e mais à frente, a casinha da caixa d’água. Lá não podíamos ir. Mas íamos correndo, com o vento na cara e a liberdade no coração que só as crianças possuem.
Do alto dele, divisávamos a estrada ao longe, as casas da colônia inteira, o céu azul, as nuvens do meio da tarde e a nossa casa, que daquela vista nos passava uma impressão de irrealidade, só que repleta de aconchego e vida.
Ao longo dele havia tantas novidades, que perdíamos a hora; caminhávamos na beirada do paredão vasculhando todas as reentrâncias que encontrávamos. Do outro lado ficava a tulha velha e a bocarra aberta que recebia os grãos assemelhava à boca do inferno, desse que nos horroriza, mas que também nos fascina.
Colhíamos todas as florezinhas do caminho, todas as pedras diferentes e todos os grãos multicoloridos. Dançávamos uma música imaginária e nos soltávamos feito loucas por aquele espaço onde só havia a felicidade da transgressão e do objetivo alcançado.
Subir as escadarias daquele terreirão de café foi o primeiro desafio da minha vida. E não havia nada que eu mais quisesse fazer do que subir lá e mostrar a minha força ou igualdade perante as outras crianças.
Hoje comparo os desafios da nossa vida àquele em subir o terreirão de café. Naquela época as minhas pernas eram curtas, a minha capacidade de avaliação amadora, mas a obstinação era tamanha, que aquelas limitações não contavam, até porque enquanto crianças não possuímos a impiedosa autocrítica do adulto.
Assim, daquela fase ficou uma preciosa lição, ou seja, que todos nós temos inúmeros “terreirões de café” a escalar, mas que se mantivermos uma persistência que muitas vezes necessita ser ingênua, a despeito das nossas limitações, com certeza ainda correremos livres sobre as muralhas da nossa vida.