O secretário de Saúde, Rodolfo Moraes, é um sujeito tranquilo, de fala mansa, suavemente cantada, típica dos nascidos no Centro-Oeste como ele próprio. Nada afeito a arroubos ou rompantes, Rodolfo tem interlocução com todo mundo. Assumiu o comando de uma das áreas mais sensíveis do município e, rapidamente, mostrou que era capaz de criar confiança – e gerar resultados. Fez do inferno habitual no PS “Dr Álvaro Azzuz” uma lembrança distante, reduzindo o tempo de atendimento e acabando com o caos frequente. Diminuiu a fila de cirurgias eletivas. Melhorou sensivelmente a qualidade das UPAs e UBS que eram foco continuo de problemas. Ganhou o respeito dos servidores, a simpatia da população, a admiração dos colegas. Era um trunfo e tanto do governo Gilson de Souza (DEM).
Na tarde da última quinta-feira, num comunicado divulgado pelas redes sociais, Rodolfo Moraes avisou que estava deixando o governo. Foi polido, mas firme. Disse, com todas as letras, que saía por dificuldades de relacionamento com o prefeito Gilson de Souza. “Existem muitas divergências entre mim e o prefeito com relação ao modo de agir e conduzir a máquina pública. Divergências essas que são incompatíveis com meu modo de pensar, sentir e conduzir as coisas”, escreveu.
A maneira com que se deu a saída de Rodolfo Moraes, o sexto secretário a se demitir em menos de três meses, traduz como nenhuma palavra conseguiria o isolamento cada vez maior do prefeito Gilson de Souza. Rodolfo sequer se sentou com Gilson para apresentar seus motivos ou entregar pessoalmente o pedido de demissão. Inverteu a lógica. Protocolou o pedido de demissão no gabinete, um ato formal e impessoal, e já divulgou sua decisão publicamente. Evitou, assim, a tentação de ceder a eventuais apelos de Gilson para que continuasse à frente da Saúde. Quando o prefeito soube que o comandante da pasta da estava deixando o cargo, toda a cidade já sabia também. Não havia mais condições para qualquer tipo de contenção. Muito menos, para reversão da decisão.
A demissão é um fato e está consumada. Rodolfo, ainda muito jovem, mostrou que tem imenso potencial e, se o destino permitir, pode num futuro qualquer retomar o comando da Saúde, num outro momento, num governo distinto, onde as “divergências” sejam menores. Pode tambem alçar voos maiores.
Ao prefeito Gilson de Souza, passa, e muito, da hora de refletir. Um secretário sair, acontece. Dois, poderia ser coincidência. Três, seria um claro indicativo de problema. Mas a situação é muito mais aguda. Seis secretários se demitiram. Simplesmente, por vontade própria, rejeitaram continuar exercendo as funções para as quais tinham dito “sim” meses antes. Abriram mão de status, de poder, do salário. Prefeririam o risco do ostracismo ao desafio de conviver com o prefeito.
Gilson de Souza precisa entender que, muito provavelmente, o problema está nele mesmo. No jeito confuso. Na falta de clareza. Nas idas e vindas. Nos projetos anunciados sem que os secretários saibam do que se trata. Se não o fizer, a lista pode crescer. Rodolfo Moraes foi o sexto a deixar o governo. Pode muito bem não ter sido o último.