09 de julho de 2026

'O nós é muito maior que o eu', diz técnico Helinho


| Tempo de leitura: 13 min

Filho de um campeão do basquete, reconhecido em todo o Brasil, Helinho Garcia poderia ter escolhido diferentes caminhos para trilhar. Escolheu aguentar a pressão da sua tradição familiar, de uma cidade que respira basquete e as restrições que o esporte de alto rendimento impõe. O sacrifício não foi em vão. Como jogador, conquistou 7 campeonatos brasileiros, 3 paulistas, 4 mineiros, 2 cariocas, 3 sul americanos, 3 pan americanos e foi vice no mundial. Pela seleção ainda comemorou um campeonato sul americano e um pan americano. Em dois anos e meio como técnico, foi vice no campeonato paulista, depois campeão paulista e da liga sul americana. Agora, tem um novo sonho: comandar a seleção brasileira.


Você leva o nome do seu pai, um dos maiores campeões do basquete brasileiro, e é o técnico do time da capital do basquete. Não pesa, às vezes?

Acho que tudo vai de acordo com o preparo que você tem. É óbvio que, desde pequeno eu tenho aquela cobrança “vai ser jogador?”, “vai jogar na seleção?”, “mas é bom mesmo?” e, como técnico, eu sabia que no começo poderia ter também. Mas, por toda minha trajetória, eu tinha certeza daquilo que eu estava fazendo. É óbvio que existe uma cobrança natural, mas meu foco está em como fazer, fazer com intensidade, disciplina e como tudo aquilo que eu aprendi ao longo de 30 anos ao lado do meu pai.


Você nunca pensou em fazer outra coisa?

Já. Até já fiz outras coisas. Já tive uma loja junto com minha esposa e minha prima. Já tive outros negócios com amigos meus, mas minha paixão é o basquete. Eu nasci em uma cidade, em uma família, que respira basquete, que tem o basquete na veia. Então desde pequeno eu sabia que queria ser jogador e no final da minha carreira eu sabia que queria ser técnico. Procurei me preparar da melhor forma possível para superar e suportar pressões e desafios que viriam pela frente.


Você se lembra, na sua infância, de uma primeira memória do basquete?

Eu tenho até uma foto na minha palestra em que eu estou uniformizado com um macacão do Franca Basquete, com o número oito, na minha primeira semana de vida. Então é uma coisa que veio natural. Meus pais sempre me deram liberdade para escolher. Eu fiz natação, tênis, sempre ligando os estudos com o esporte. Com 15 anos eu percebi realmente que eu queria jogar basquete. Obviamente tive muitos desafios. Eu precisei trabalhar muito para mostrar o meu talento. Eu tive um crescimento de altura tardio, mas gradativamente, com muito trabalho, eu fui desenvolvendo, fui ganhando meu espaço, ganhando credibilidade. Fico muito feliz de ter alcançado meus objetivos como jogador e agora conquistando como técnico também.


 Como foi a relação com seu pai na sua infância?

Até mesmo pela paixão, pela disciplina que ele sempre teve, meu pai sempre colocou muito foco no trabalho dele. Apesar de ser muito intenso dentro da quadra, ele sempre foi muito tranquilo e sereno no aspecto familiar. Inclusive para deixar as coisas irem acontecendo de forma natural. Ele nunca me pressionou para treinar mais, por exemplo. Existiam cobranças é claro, mas sempre da forma correta. Ele tem uma fala muito forte e que eu levo comigo. “Nós somos senhores do nosso próprio destino.” Então as coisas vão acontecer para a gente se nós fizermos com que aconteçam. Foi assim que ele me deu a liberdade para escolher o que eu queria fazer.


Mas você era muito novo, com apenas 15 anos, quando começou uma rotina de dieta e treinamentos muito pesada. Você teve que fazer muitas renúncias?

Muito, as minhas renúncias foram enormes. Desde essa época. Meu pai sempre me alertou da importância do comprometimento. Com as viagens, eu perdi desde o aniversários de uma irmã, um casamento de um primo... até abrir mão de sair para me divertir porque tinha que treinar para evoluir e chegar onde eu queria chegar. Então foram muitas renúncias que eu tive como atleta. Óbvio que agora como técnico estou tendo outras também, mas dentro de uma profissão que envolve paixão, temos que ter consciência de que precisamos abrir mão de algumas coisas.


Como atleta a sua rotina sempre foi regrada? Desde a adolescência até parar de jogar?

Sempre! Se tem uma coisa que posso dizer de peito aberto é que eu sempre fui muito comprometido com aquilo que eu quis fazer. Eu dormia nos horários certos, me alimentava corretamente, se eu saía eu voltava bem antes do horário determinado. Hoje eu bebo socialmente. Eu tomo uma cervejinha com os amigos. Mas em dia de jogo, por mais que eu não jogue mais, eu procuro me concentrar. Seja em Franca ou fora. É o momento em que eu estou pensando no que eu tenho que fazer, assistindo os vídeos que eu tenho que assistir.


Qual as memórias mais marcantes que você carrega da época de jogador?

Os títulos são sempre memoráveis. Eles consagram a rotina difícil que enfrentamos no dia a dia. É um prazer que você sente em ver as pessoas curtindo junto com você, que não tem jeito de medir. Mas o tricampeonato por Franca, o campeonato Pan-Americano pela seleção em Winnipeg, foram momentos muito especiais na minha carreira.

Como foi o período na seleção? É muito diferente de jogar em um clube?

A seleção é, ao mesmo tempo, um reconhecimento, um prazer por representar sua pátria, mas também tem um desgaste. Ficamos cerca de um mês e meio treinando fora de casa para jogar uma competição de 12 dias. É uma cobrança diferente, de nível nacional e até internacional. Quando você chega na seleção, você está chegando num patamar em que praticamente a totalidade daqueles que tem a sua profissão gostariam de estar.


Quais competições você disputou pela seleção?

Eu joguei cinco anos praticamente pela seleção, ganhei um Sul-Americano, o Pan-Americano, e participei de dois mundiais.


Como é a estrutura da seleção?

No meu modo de ver, na época era um pouco deficiente.Ficávamos em um hotel inferior. Tínhamos que malhar em um local, treinar em outro, voltar para o hotel. Hoje em dia a estrutura está bem melhor. Hoje quando tem um treinamento da seleção está tudo no mesmo lugar. Jogadores maiores podem viajar de classe executiva. Na época só viajávamos de econômica e tem muitos jogadores altos que não cabiam direito nas assentos.

Existe uma diferença muito grande de estrutura entre Brasil e Estados Unidos por exemplo. Você acha que em algum momento vamos conseguir equilibrar isso?

O grande lance para termos sucesso em qualquer esporte é a massificação. Os americanos são fenômenos porque eles têm todos os esportes nas escolas e universidades. Eles pinçam os melhores para serem profissionais. Então eles conseguem, através de uma política esportiva, tirar qualidade da quantidade. É isso que precisamos fazer. O Brasil precisa buscar uma política esportiva bem formada para que possamos aumentar o número de atletas, não só de basquete mas também de outros esportes. O brasileiro tem um biotipo ótimo para os esportes.


Como foi a sua transição de jogador para técnico?

Eu fiquei um ano na parte administrativa que para mim foi muito importante. Além de pegar conceitos, pude conhecer um pouco mais a parte burocrática.Depois fui passar uma temporada de vinte dias no Golden State Warriors. Procurei trocar ideias com pessoas que eu confio, como meu pai, meu tio e outros técnicos e isso para mim com certeza foi muito importante para que eu pudesse ganhar confiança.


Desde sempre você pensou em ficar em Franca ?

Desde sempre! Primeiro porque eu sou francano, depois porque eu construí uma história bacana aqui como jogador. É um lugar onde eu aprendi que eu quero ter a oportunidade de passar os meus conceitos que eu aprendi ao longo dos meus 25 anos jogando para as pessoas. Fui realmente abençoado de ter a oportunidade de fazer meu trabalho aqui.


Até por conta da ausência dessa política esportiva no Brasil, como você enxerga a estrutura dos clubes no Brasil? É sempre uma luta por patrocínios...

Hoje o basquete melhorou, cresceu porque os clubes se organizaram e formaram a liga. A NBB hoje está com uma gestão mais profissional. Os clubes estão buscando ter uma estrutura maior de marketing, administrativa, de gestão por exemplo. Isso influencia também dentro da quadra. Porém, eu volto a falar. É muito importante que tenhamos uma política nacional esportiva para que possamos fomentar mais o esporte. Quando você aumenta a quantidade de pessoas praticando o esporte, aumenta a quantidade de patrocinadores, de gestores, de pessoas, de um modo geral, dispostas a trabalhar com o esporte.


Em 2018 acompanhamos uma fase muito difícil do Franca Basquete. Várias pessoas até chegaram a questionar sua atuação como técnico. Como foi viver esse momento? Foi seu pior momento?

Na minha vida de técnico sim, mas eu sabia que existiam fatores importantes naquele momento. Por exemplo, jogamos contra o Bauru e o Paulistano (no começo do ano, pelo NBB) sem três jogadores que estavam servindo a seleção. Hettsheimeir que estava machucado mas serviria a seleção se não fosse a lesão, Lucas Dias e Didi. O time de Bauru não tinha nenhum na seleção. A equipe do Paulistano tinha dois, porém, nas posições que fomos desfalcados, eram posições muito sentidas pela equipe. Eles são “carro-chefe” nas posições. (...) Então eu foquei naquilo que eu deveria fazer, compartilhei com os jogadores, tive o apoio da instituição, diretores e conselho, e todos entenderam a mensagem e fomos crescendo - como eu via - com a disciplina e o comprometimento. Eu entendo, que estávamos há 11 anos sem títulos, houve a desclassificação do último NBB, onde o time não jogou bem. Não conseguimos treinar da maneira desejada, com vários jogadores machucados ao longo da temporada. Então são fatores que quem está no meio consegue visualizar, mas às vezes quem não está não consegue enxergar dessa maneira.


Ainda assim, foi muito duro suportar as críticas da torcida?

Eu particularmente tenho uma autocrítica muito grande. Sei onde estão os meus erros, meus acertos. Sei onde preciso melhorar e trabalho para isso. O que me incomoda muito é a injustiça. Então, não enxergar que estamos sem três jogadores e por isso é difícil ganhar. Então, a crítica não me incomoda desde que ela seja coerente. Mas eu tenho que estar focado no meu trabalho para corrigir as falhas. Para isso ainda tenho a comissão técnica, tem pessoas do meu lado com muita vivência. É óbvio que sou um ser humano como qualquer outro, mas quando perdemos um jogo, no próximo eu tenho que estar focado para visualizar onde erramos para acertar. A função do técnico, independente se depois de uma vitória ou de uma derrota, é ver onde estão os erros e aumentar o número de acertos.


E quanto a reunião, feita pela diretoria, para reavaliar o seu trabalho naquele período mais difícil, deixou alguma mágoa?

Eu vou ser muito sincero. A função da diretoria é também ter o discernimento daquilo que vem acontecendo. Por eu ter continuado, eles tiveram esse discernimento e conseguiram ver que o trabalho estava sendo feito. Eu falo muito para eles. Não é um produto, é um processo. Se todos souberem disso, a gente pode ganhar ou perder, o importante é o trabalho que está sendo feito. Naturalmente, no processo vão acontecer os títulos.

O clube passava por uma crise financeira, desestruturado e você ajudou a dar um reinício nesse time...

Claro, mas não foi sozinho. A força veio dos patrocinadores, da diretoria, da comissão técnica, que entendeu a necessidade de fazer acontecer da melhor forma. Com relação ao trabalho, eu tinha certeza daquilo que estava sendo feito.

Foi você quem escolheu trabalhar com jogadores menos conhecidos. Foi seu estilo colocado em prática...

A montagem da equipe é muito importante. O que nós fizemos? Nós procuramos buscar jogadores bons tecnicamente, que são muito bons de relacionamento e que tenham características de serem disciplinados e comprometidos em outras equipes. E isso foi ganhando força durante a temporada.

Como foi trazer o Leandrinho?

A vinda dele foi muito importante para nós. Ele é um atleta disciplinado e comprometido. Só que, infelizmente ele teve uma lesão, e acabou não jogando os playoffs e isso, sem dúvida, foi muito sentido. Com ele jogando eu tenho certeza que a nossa chance de ganhar aumentaria muito. Mas ele não pode jogar. Não foi culpa dele, mas isso foi muito sentido pelo grupo.

Essas contusões que vemos tanto nos atletas, normalmente acontecem por conta da idade?

Não necessariamente. Normalmente são contusões acidentais. Alguém que torce o pé, tem uma lesão muscular, que quebra uma perna, é fruto do desgaste. Hoje a velocidade aumentou. Eu sempre trago o exemplo da Fórmula 1. Por que os carros da F1 quebram mais? Porque a velocidade é muito grande. Por isso a necessidade de ter um grupo forte. Esse ano conseguimos isso, mesclando jogadores novos com experientes. É por isso que estamos superando ausências importantes.

Qual a relação com os patrocinadores?

Uma pessoa que me ajuda muito é a Luiza Helena (Trajano, presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza). Ela é minha coach. Seja para criticar ou elogiar, ela é uma pessoa que tem uma sensibilidade e um conhecimento muito grandes.

Ela é brava?

Muito brava. Mas eu gosto de pessoas que cobram sabendo que ela está cobrando com coerência. Ela está cobrando querendo o meu bem. Que é coisa que meu pai e meu tio fazem também. Eles me cobram querendo meu bem. São críticas que vêm para construir. Então ela acompanha e muitas vezes eu até quero ligar para ela para ouvir, ela me dá feedbacks muito importantes.

E com o Sesi?

Eu tenho um relacionamento ótimo. Eles estão curtindo muito esse momento. E os conceitos que eu tenho na minha vida o Sesi tem como entidade, de fazer com disciplina, com intensidade, respeitando sempre os adversários. Esse casamento deu muito certo porque eles prezam pelos conceitos que Franca sempre teve. Então, a chance de dar certo fica muito maior.

Ganhar e perder faz parte de todos os esportes. É praticamente impossível imaginar que um time vai sempre só ganhar…

Eu falo muito que não é ganhar ou perder. É como a gente faz. Muitas vezes fazemos com toda a intensidade, toda a disciplina. Mas o outro time faz também e ganha. Eu falo sempre para os jogadores que temos que jogar com a cara de Franca.

Que cara (de Franca) é essa?

É fazer com disciplina, fazer com intensidade, fazer com paixão e é isso que faz toda a diferença para conquistarmos os objetivos pela frente. Vamos ganhar tudo? Com certeza não. Seria impossível. O esporte é muito mais visto com olhares de paixão que com a razão. Quando você olha com razão, você entende o trabalho que está sendo feito e não apenas o resultado.

O que esperar de 2019? Qual o grande objetivo do ano?

Continuar trabalhando com intensidade, com disciplina, continuar fazendo com paixão, com que os jogadores possam ver que o nós é muito maior que eu.

Teremos mudanças no time?

Temos vários jogadores com dois anos de contrato. Alguns que não tem já estamos conversando para que eles possam ficar. Vemos que esse time tem as características importantes que a gente preza. A ideia é manter a equipe.

E quanto a você? Se receber uma proposta de outro clube?

Meu foco hoje é permanecer em Franca. Eu adoro, os resultados aconteceram. Os títulos aconteceram de uma forma muito rápida, para falar a verdade. Eu sou apaixonado pela cidade de Franca e penso em permanecer aqui. Até pelo crescimento que estou experimentando e por tudo que vem acontecendo nessa reestruturação do Sesi Franca Basquete.

Você pensa na seleção? Que começa um novo ciclo em 2019?

Penso. Vai ter o mundial ano que vem. Eu trabalho sempre pensando em conquistar grandes objetivos. Sem dúvida que a seleção é um grande objetivo para qualquer treinador. Eu trabalho muito pensando na seleção também, mas acho que é de forma natural.