Bebida, drogas e dinheiro. Estes foram os ingredientes de um crime que chocou a população da pequena Igarapava, cidade com cerca de 31 mil habitantes. Pai e filho, ambos lavradores desempregados, Luís Carlos Luciano, de 55 anos e Fabiano da Silva Luciano, de 32 anos, se envolverem na última terça-feira, 18, em mais uma das brigas que eram, segundo testemunhas, constantes entre os dois.
Sem se entenderem sobre o destino de uma indenização trabalhista recebida pelo pai, Fabiano atingiu a cabeça de Luís com uma bomba de inseticida. Com um corte na cabeça e inconformado com a atitude do filho, Luís percorreu cerca de 100 metros até uma mercearia que fica em frente a sua casa e lá comprou um litro de álcool. Com ele, Luís Carlos Luciano colocaria em prática o crime que abalou a região. Ao voltar para sua residência e encontrar o filho dormindo na edícula no fundo do terreno, o lavrador ateou fogo ao jovem e no imóvel.
Assustado com o líquido sobre o corpo, Fabiano teria corrido até o banheiro para se lavar, mas de lá só sairia com a ajuda dos policiais militares que tiveram que quebrar a parede dos fundos para entrar e socorrer o jovem. Com 95% do corpo queimado, ele não resistiu aos ferimentos e morreu horas depois na Santa Casa de Igarapava.
Os detalhes do crime, primeiro assassinato registrado na cidade neste ano, segundo o capitão da Polícia Militar Helder Antônio de Paula, chocou até mesmo os policiais que acompanharam a ocorrência. O oficial disse que no momento em que a viatura chegou para atender a ocorrência, os policiais encontraram o pai na calçada, tranquilo. Ele mesmo, o pai, disse, de acordo com o capitão, que tinha colocado fogo no filho depois de ser agredido.
“O pai atravessou a rua, chateado depois da briga, comprou o álcool e foi até a edícula, jogou o líquido no filho que acordou e correu para o banheiro. O resto do álcool ele jogou na casa e acendeu o fogo, assim o Fabiano não conseguiu sair do banheiro, pois o local é pequeno. Quando os policiais chegaram, acionados pelos vizinhos até então por um incêndio em uma casa, encontrara o pai na calçada, tranquilo. Com a frieza com que o pai falou sobre o incêndio e que o filho estaria na casa, os policiais até duvidaram”, disse o capitão.
Vizinha da família há cerca de seis anos, Maria Auxiliadora da Silva, 56, afirmou que as brigas entre pai e filho eram ouvidas com frequência. “O Fabiano era um menino muito bom, falava e brincava com todo mundo, mas ele e o pai sempre brigavam. Ouvíamos, mas jamais imaginamos que poderia acabar da forma que acabou. É triste, chocante e realmente uma tragédia uma família terminar desta forma”, lamentou.
Em depoimento, pai muda sua versão
Em depoimento para a Polícia Civil, Luís Luciano, que foi preso em flagrante por homicídio doloso - quando há intenção de matar - teria afirmado que não sabia que o filho estaria dentro da casa e o incêndio teria sido apenas uma forma de assustar o filho e fazer com que ele se mudasse. Já em um vídeo gravado pela Polícia Militar, logo após a prisão e antes da morte de Fabiano, o pai afirmou que o filho teria ameaçado e tentado agredir a mãe. “Ele pegou a bomba e jogou em direção da mãe, mas ela se abaixou e sobrou na minha cara. Ele já levou muita surra minha, não vou mentir. Não quero matar, não quero nada, mas desta vez ele passou do limite. Depois disso, saí, sentei na minha cadeira, peguei o meu cigarro e falei ‘o Fabiano não vai mais fazer isso comigo e com ninguém dentro de casa, já não aguento mais’”, disse.
‘Meu filho gritava mãe, mãe, socorro’
Lavradora desempregada, Rosemeire Ferreira da Silva, 51, mulher de Luís e mãe de Fabiano, recebeu a reportagem do Comércio e ainda bastante abalada falou sobre a tragédia que aconteceu com sua família.
“Estava fazendo o jantar quando ouvi meu filho gritando ‘mãe, mãe, socorro mãe’. Meu marido e filho não se entendiam”, disse a mãe de Fabiano, Rosemeire Ferreira da Silva. “Os dois não podiam se ver que brigavam, ainda mais quando meu filho Fabiano bebia. Ele gostava muito de uma pinga e também fumava, todos sabiam disso. Mas, nesse dia, quando tudo aconteceu, foi uma briga feia. O Fabiano acertou a cabeça do pai com um objeto e foi pra edícula. Meu marido saiu e comprou álcool, quando vi o fogo já tinha tomado conta”, disse.
Na casa humilde que dividia com os dois, onde mora também o filho mais novo de Fabiano, de apenas 10 anos, Rosemeire afirmou estar sem chão e ainda tenta juntar os pedaços para recomeçar.
“Enterrei meu filho, meu marido está preso e meu outro filho também não está aqui. Agora me resta o meu neto, de quem cuido desde que nasceu. É uma situação muito difícil, em que tenho dificuldade ainda de entender, mas preciso juntar os cacos e seguir. Meu marido é uma pessoa boa, mas errou e agora terá que pagar. Só espero que agora meu filho consiga descansar em paz”, finalizou emocionada.