Morei, por muitos anos, numa casa rodeada de mulheres. Éramos minha mãe, duas irmãs, uma afilhada, Ilma (que cuidava da casa, ou melhor, da alma da família) e eu.
A sensação era de completude, estava sempre acompanhada de uma boa risada ou de um abraço apertado.
Somente entendi o que era solidão quando me mudei de cidade.
Tentei conhecer, aos poucos, as namoradas dos amigos do meu marido. Mas os encontros não passavam de conversas cordiais, sem afagos fumegantes.
Engravidei e aí sim a solidão inundou dentro de mim, uma aparente contradição, eu sei.
Minha mãe veio de longe me ajudar no pós-parto, ficou por quase 10 dias e precisou partir. É que o passarinho precisava aprender a voar e cuidar sozinho do seu ninho.
Encontrei apoio no marido, mas uma parte de mim clamava por uma voz feminina, para compartilhar as angústias e as dores daquele poço mais secreto e profundo chamado coração.
E é exatamente aí que ela entra na minha casa e depois na minha vida, para nunca mais sair.
Ana Flávia, mais conhecida como Preta, Pretinha ou Aninha, foi a necessidade atendida, sem nunca ser dita, sem jamais ter sido pedida.
De namorada do amigo do meu marido, passou a colega, depois a amiga e tão logo se tornou irmã.
Recebi sua visita em pleno puerpério. Os olhos fundos, a camisola cheirava a leite azedo e o coque no cabelo indicava o desapego com o espelho.
Ao invés de fazer sala, para a minha surpresa, entreguei minha cria nos braços daquela criatura mais doce e divina que havia conhecido.
Os dias passavam lá fora, e eu a esperava aqui dentro, como quem aguarda uma linda música tocar.
Não me arrumava para ela, também não a percebia entrar.
Em questão de segundos, ela me fazia rir de mim mesma, ela me fazia acreditar.
Talvez ela não saiba que ali representava uma tribo inteira de mulheres, uma irmandade a me acolher e a me acalmar.
Certo dia, perguntei-me covardemente: será que ela é mesmo minha amiga?
E foi só eu ficar doente para a resposta bater à porta de casa com uma sopinha quentinha, de levantar qualquer lágrima caída.
E foi assim sentada ao sol para cicatrizar as rachaduras da amamentação, enquanto meu bebê serenava naquele colo moreno, que eu avistei uma linda árvore ao longe e imaginei a fortaleza da sua raiz.
Quantas pessoas não sabem que são raízes de árvores amigas, que restabelecem o vigor?
É, Aninha foi raiz de ribanceira, foi música para os meus ouvidos, foi o meu mais alto tenor.
É que apesar de tudo, tudo, tudo, o que resta sempre na vida é o amor.