08 de julho de 2026

Considerações em torno da linguagem


| Tempo de leitura: 5 min

Foi no sábado passado que assisti ao filme “A chegada”, do diretor Denis Villeneuve, escolhido para celebrar o décimo ano do projeto Cinema &Psicanálise de Franca. Desde então o tema desafiador da linguagem, que na verdade nunca me abandona, tomou conta de minha mente. O enredo é inspirado no conto “A história de sua vida”, do ficcionista norte-americano Ted Chiang, 49, e acompanha a narrativa, que tem dois eixos. Um é a chegada à Terra de oito imensas naves que trazem do espaço os heptápodes, seres pacíficos mas temidos pelos humanos que quase sempre lidam mal com o desconhecido. Outro é a conversa só aparentemente imaginária de Louise (linguista chamada pelo governo para decifrar a fala dos extraterrestres) com um bebê, depois uma criança, que sabemos aos poucos ser sua filha. O filme é instigante. O conto, me disseram os que o leram, tem construção inusitada, usando registros de tempos verbais que soam sobretudo estranhos porque misturam presente, pretérito e futuro, tipo “ hoje eu me lembro de uma vez que iremos de carro”. Como assim? Lembrar o futuro? Pois é exatamente disso que tratam livro e filme, por mais paradoxal que pareça.

Fui procurar informações sobre Chiang. Descobri que é formado em ciência da computação, assina artigos sobre o assunto, é fascinado por princípios variacionais da física, dedica-se de forma “lenta e equilibrada” à literatura de ficção científica. E é avesso a entrevistas. Mas numa delas, ao jornal New York Times, declarou que seu objetivo principal como escritor “tem a ver com se envolver em questões filosóficas e experimentos pensados, tentando esgotar as consequências de certas ideias”. Entre essas estão algumas de Stephen Hawking, George Orwell e... Edward Sapir.

Ao ler este nome, Sapir, me veio de imediato à lembrança aulas do saudoso e querido professor João Alves Pereira Penha, grande filólogo e linguista que despertou seus alunos de Franca e região para o mundo da linguagem. Dele ouvi pela primeira vez a menção ao antropólogo que se tornou conhecido por associar língua e cultura. Alemão de origem judia, radicado nos EUA onde viveu até sua morte em 1939, Sapir liderou o estudo da linguística estrutural , explorou as relações entre antropologia e linguagem, sugeriu que esta influencia a forma como os indivíduos pensam.

Um ano após a morte de Sapir, o colega Benjamim Whorf publicou estudo chamado “Hipótese de Sapir-Whorf”, onde defendia tese segundo a qual “a percepção de um observador sobre o mundo ao seu redor, é controlada de forma fundamental pela linguagem que ele usa”. Os exemplos vinham de pesquisas com esquimós, que empregam termos singulares para definir diversas nuances da cor branca; com os índios navajos, para os quais tanto o azul como o cinza são nomeados pela mesma palavra; com os falantes do hebraico, que têm palavras distintas para o azul do céu e o azul do mar; com os hopis, nativos que vivem em reservas do Arizona e do Colorado, e se expressam sem uso de tempos verbais. Etc. As pesquisas foram muitas e renderam a Whorf a aposta na “ ideia de que a estrutura e o vocabulário de uma língua são capazes de moldar os pensamentos e as percepções de seus falantes, sendo portanto inseparáveis cognição e língua”. Voltava à berlinda questão intensamente discutida: nasce primeiro a linguagem ou o pensamento?

( Num artigo pouco divulgado, o filósofo Adam Smith, mais conhecido na área da economia, diz de forma interessante que “ a palavra ‘verde’, denotando não o nome de uma substância, mas a qualidade peculiar de uma substância, teve de ser, desde o início, uma palavra geral, e considerada como igualmente aplicável a qualquer outra substância possuidora da mesma qualidade. A pessoa que primeiro inventou essa designação (verde) teve de distinguir a qualidade do objeto ao qual esta pertencia e teve de conceber o objeto como capaz de subsistir sem a qualidade. A invenção, portanto, até mesmo do mais simples adjetivo precisou de mais metafísica do que estamos aptos a estar cientes. As diferentes operações mentais de arranjo ou classificação, de comparação e de abstração precisaram todas ser empregadas antes que até mesmo os nomes das diferentes cores, os menos metafísicos dos adjetivos, pudessem ser instituídos.”)O texto de Adam Smith é de 1761.

Outras pesquisas e estudos levaram a discussão para novos caminhos no final do século XX. Um deles, a neurolinguística, que estuda os mecanismos do cérebro humano que possibilitam a compreensão, a produção e o conhecimento da linguagem, tanto falada como escrita. Nos últimos anos esta disciplina avançou de forma importante ao incorporar as novas tecnologias com as quais vem alargando seu campo de pesquisa.

Bem antes de Chiang, também bebeu na fonte “Sapir-Whorf” o romancista George Orwell, que escreveu a ficção científica “1984”, onde antevê um governo totalitário que desenvolve versão simplificada do inglês para seus governados. Do idioma são excluídas palavras para determinados conceitos e ações- o que, em tese, impediria as pessoas de pensar sobre a existência destes conceitos e ações. Isso também é provocativo: se não conhecemos o termo democracia, por exemplo, saberemos do que se trata?

Voltando ao filme, que inspirou essas considerações, a forma como o argumento linguístico foi tratado, em edição bem cuidada e inteligente, é daquelas que conseguem delicadamente levar o espectador para dentro do raciocínio da protagonista, de forma que acompanhamos a linguista à medida que ela avança no esforço imensurável de decifrar a língua dos heptápodes- na forma oral, série de ruídos; na forma escrita, símbolos circulares. O final é impactante e perturbador.

“A Chegada” me fez pensar mais uma vez no fato de que artistas são a antena da raça humana e sinalizam antes o que está por vir. Não foi por acaso o que sucedeu a Jules Verne (1828-1905) quando fez em seus livros predições detalhadas sobre avanços científicos ainda impensáveis como submarinos, máquinas voadoras e viagem à lua?

Que a linguagem nos funda e nos revela enquanto humanos, tenho como certo. E que a linguagem literária nos leva a alçar voos e entender que o incognoscível um dia será nomeado, também. Faz apenas quatro séculos que Shakespeare escreveu: “há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia.” E faz apenas seis décadas que Heidegger aconselhou: “A biologia e a antropologia filosófica, a sociologia e a psicologia, a teologia e a poética – todas devem ser mobilizadas a fim de descrever e explicar os fenômenos linguísticos de modo mais abrangente.” Se vivesse hoje, por certo acrescentaria os avanços da física quântica e as tecnologias digitais...