05 de abril de 2026

50 best e nós


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É triste o isolamento que nosso idioma nos impõe na América Latina. Não se trata de criticar o Português, de forma alguma! Minha língua é minha pátria, mas ficamos pelas beiradas. E não é de hoje que os eventos, sejam eles sociais ou políticos, encontram indisposição na junção entre o castelhano e o português. De Simão Bolívar à Copa Libertadores da América não pronunciamos um “nós” inclusivo, ou, muito me engano, preferimos o “nós” e “eles”...

Então, ler que o chef de cozinha Rodrigo Oliveira. do restaurante Mocotó, atribui a má colocação do Brasil no ranking dos 50 melhores restaurantes latino americanos à falta de articulação, é mais do mesmo. O chef ainda exalta: precisamos falar essa língua. Acredito que ele usou língua como sinônimo de cultura.

O 50 Best América Latina está na sua sexta edição. Esse ano trouxe nove restaurantes brasileiros. É pouco, estamos atrás do Peru, do México e da Argentina, sem falar no tamanho das nossas possibilidades. Rodrigo, que perdeu várias posições nessa edição, sequer fala em qualidade ou atendimento. Para ele, o Brasil carece de representatividade. Só que esse ranking, ao contrário do originário 50 best do Mundo, prevê visitação obrigatória dos jurados às casas votadas, o que me parece bastante justo.

Ao que parece, os jurados, lá e cá, perseguem a mesma estrela: originalidade, raiz, técnica, pureza e beleza. O Tuju, por exemplo, o último classificado, exibe uma apresentação de ourives com louçaria de criação exclusiva, em cerâmica, mais acolhe do que serve - admirável. O mesmo pode ser dito do Maní, e do D.O.M, em São Paulo e dos: Oro, Oteque, Lasai e Olympe, todos no Rio de Janeiro. Diria que há dois pontos fora dessa curva: Mocotó e a Casa do Porco, esses dois estão mais ligados ao sabor e afetividade da comida - sabe quando a comida nos parece quente?

Aliás, entre os brasileiros o destaque é para Jefferson Rueda, justo da Casa do Porco. Ele foi o único a subir de posição e, modesto, disse que isso pouco importa, vale a representabilidade. Não é de duvidar que tenha sido sincero. Jefferson está acostumado aos embates e a fazer acontecer ideias difíceis como essa: um restaurante que trabalha com ingrediente único. Para o mundo não é nada estranho, mas para nós, brasileiros, acostumados a cardápios que contemplam mar, terra e ar, parece algo desafinado. Só parece, a Casa do Porco, independente do 50 best é um grande sucesso.