08 de julho de 2026

'Diante da morte é quando mais valorizamos a vida'


| Tempo de leitura: 7 min
Rodolfo Moraes Silva

O médico Rodolfo Moraes Silva tem extenso e conhecido currículo profissional. Ele é o Secretário de Saúde de Franca, é professor no curso de Medicina da Unifran, membro do corpo clínico e plantonista da Santa Casa de Franca, membro do corpo clínico e plantonista no São Joaquim Hospital e Maternidade/Unimed Franca e membro da Sociedade Brasileira para Estudo da Dor. Mas nem todos conhecem o trabalho diário e delicado que desenvolve na área da saúde. Desde sua formação já sentia que podia ajudar pacientes que já haviam, de certa forma, perdido as esperanças. Ele sempre buscou uma forma de se colocar no lugar do paciente, para tentar aliviar o sofrimento de quem trata de doenças graves e potencialmente letais. Por essa razão, tornou-se especialista em cuidados paliativos.

Com graduação em Medicina pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Residência Médica na Especialidade de Clínica Médica pela Santa Casa da Franca, Pós-Graduação de Especialização em Dor pelo Hospital Albert Einstein, mantém, em meio a sua atribulada rotina, o foco em melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

Muitas pessoas acreditam que cuidados paliativos são sinônimos de morte. Como o senhor vê esse pensamento e o que de fato são esses cuidados? Eles se destinam apenas a pacientes terminais?
Cuidado paliativos visam melhorar a qualidade de vida de pacientes e familiares, diante de uma situação de um diagnóstico potencialmente grave e letal, que pode levar à morte. Esses cuidados são atingidos abordando a pessoa e a família de uma forma multiprofissional, tentando aliviar o sofrimento e a dor. Levando em consideração aspectos sociais, mentais físicos, psicológicos e espirituais. Não é só para o paciente terminal, aquele que está a beira da morte. Ele é indicado pra todo o paciente que tenha o diagnóstico de uma grave doença, que possa também levar à morte. Cuidados paliativos não quer dizer morte, isso é um mito. Não quer dizer também que a pessoa já está a beira da morte e por isso está indo para cuidados paliativos, isso é um preconceito que algumas pessoas têm.

Como garantir melhor qualidade de vida a um paciente com uma doença grave e potencialmente letal?
É possível desde que você entenda o indivíduo não como uma doença, mas como uma pessoa. E uma pessoa que não pode ser definida apenas por uma patologia. É um ser multidimensional, que tem aspectos sociais, religiosos, orgânicos. Tudo isso para cada um destes campos do indivíduo do ser humano, você pode atuar somando em qualidade de vida. Não é porque a pessoa está fora de possibilidade terapêutica, que não há nada mais a ser feito. Tem muito a ser feito, pois a pessoa ainda está viva. A doença pode estar ‘vencendo’ a situação, mas a pessoa em si ainda está viva e merece toda a atenção e carinho. Isso é outro preconceito, pois pensam que quando não há nada pra fazer, oferecem o cuidado paliativo, como se não fosse nada. Pelo contrário, ele é tudo! Pois a pessoa não vai morrer diante de um sofrimento. Não é necessário que isso aconteça mais hoje em dia.

Como é para o senhor trabalhar com um paciente que vivencia tão de perto a ideia da morte?
É um aprendizado grandioso. Diante da morte ou da possibilidade dela, é que as pessoas e os familiares mais valorizam a vida, onde se lembram das coisas que gostariam de ter feito e por algum motivo, muitas vezes até banal, não fizeram e deixaram o tempo passar. São pessoas que diante da sensação de morte, do sofrimento, conseguem sorrir, ter uma postura de aceitação e força interior que nos surpreende e nos faz questionar os próprios conceitos de vida e morte. Aprendemos muito a cada dia.

Como é para um médico que se formou jurando lutar pela vida ter que trabalhar com a preparação para a morte?
Depende muito dos nossos próprios conceitos de vida e morte. Quando você entende a morte como inimiga, e realmente a faculdade e até mesmo nossa sociedade encara a morte como uma derrota, a luta fica de fato perdida, pois ninguém vence a morte. Se o médico encara a morte como inimiga, ele vai ser sempre frustrado. Precisamos mudar o conceito de morte, pois ela é algo natural, faz parte da vida. Quando você muda a visão de morte, você não está lutando contra ela, e sim a favor do paciente, para que ela ocorra sem sofrimento.

Que lições essa proximidade com o fim da vida trouxe?
A maior lição sem dúvida nenhuma é de valorizar a vida. É ver essas pessoas muitas vezes sorrindo, te dando várias lições, priorizando coisas que quem está cheio de saúde não prioriza. Como: amizades, família, sentimentos. Isso me faz sentir mais vivo, mais útil e valorizar muito mais a minha própria vida, especialmente as coisas mais simples. E quando digo coisas simples, são simples mesmo. Por exemplo, tenho pacientes com câncer de boca cujo sonho é tomar um gole de água.

Como são aplicados os cuidados paliativos hoje?
Eles são aplicados por equipes. Quando você entende o ser humano como um ser complexo, composto não só apenas pela esfera física, mas também pela esfera emocional, você precisa atingir todos esses campos. Além dos médicos, é necessário uma equipe com assistente social, psicólogo, nutricionista, padres, pastores e médiuns, por exemplo. Inclusive, depois da morte, fica o luto dos familiares e eles também merecem atenção.

Na rede pública de Franca como funcionam os cuidados paliativos?
Não existe um serviço voltado exclusivamente para cuidados paliativos. Existe o atendimento nas UBS de pessoas em situações de terminalidade. Tem, também, muitos pacientes que estão acamados em suas casas que são assistidos por equipes que fazem visitas e dão o suporte que eles precisam na medida do possível, mas não com o foco específico. Isso com certeza é uma meta para nós. Existe a intenção de se montar equipes específicas para isso. Na rede municipal foi desenvolvido um projeto chamado ‘Melhore em Casa’, esse, sim, com o foco específico para tratamento de pacientes com doenças mais graves, limitados e que precisam de atendimento domiciliar. O projeto já foi aprovado, está em Brasília (DF), esperando a publicação para que podemos iniciar os trabalhos. Temos outro projeto maravilhoso em fase inicial, do qual tenho a honra de participar, que é o Hospital de Cuidados Paliativos do Instituto de Medicina do Além (IMA). Será um projeto grandioso, com mais de 60 leitos exclusivos para pacientes nesta situação. Vai ser um marco para a história de Franca.

Desde quando atua nessa área e por que a escolheu?
Desde 2010. Na minha formação acadêmica, na UFTM, em Uberaba (MG), me envolvi muito com a parte de oncologia e, nos dois últimos anos, fiz estágio voluntário no Hospital do Câncer da cidade. Foi onde me descobri, eu passava nos quartos, fazia visitas e via a situação de dor, de sofrimento, de abandono de muitos pacientes, e isso me marcou muito. Eu queria uma área próxima da oncologia e que eu pudesse aliviar o sofrimento dessas pessoas de alguma forma. No meu período de estágio, percebi que era algo simples de se fazer, bastava se colocar no lugar da pessoa. Logo em seguida fiz clínica médica em Franca e já emendei outra pós-graduação em uma área para que eu pudesse ter um conhecimento a mais para aliviar o sofrimento dos pacientes. Depois, durante a pós-graduação, fui convidado para iniciar o trabalho de cuidados paliativos no Hospital do Câncer de Franca.

Quais são os pedidos mais comuns dos pacientes que passam pelos cuidados paliativos?
A maior queixa é pela falta de coisas simples que, em situações normais, quase sempre não damos o valor devido. A convivência com a família é a principal delas; o tempo com o pai, com a mãe, com o filho. Muitos adorariam ter passado mais tempo com as pessoas que amam. Em segundo, se queixam de não poderem realizar as atividades normais do dia a dia ou desfrutar de pequenos prazeres da vida, como poder andar, comer, fazer uma viagem.