Só muito mais tarde saberemos o que aconteceu conosco nesses últimos meses, pode ser que a gente morra de velho sem entender, porque os participantes da História enxergam a vida com lupa, enquanto precisaríamos é de um telescópio. Enquanto isso, a gente conversa uns com outros e por isso, recebi de uma amiga uma excelente matéria que explica, em parte, nossa raiva. Somos tribalistas, na pré-história, vivíamos em pequenos grupos que partilhavam entendimentos semelhantes sobre o modo de viver; o oposto ou mesmo a divergência, eram vistos como ameaça. Aliás, podemos voltar só um pouco para entender como isso pode se processar no brasileiro, esse, cujo mito mundial é o da cordialidade. Herdamos de boa parte de nossas tribos indígenas, sendo os Tupinambá, o expoente, a vingança – não como prazer, não como maldade, mas como honra, como causa final da sociedade. Olhem só! A vingança Tupinambá não mirava o passado – mato-te porque você matou alguém meu. Mirava o futuro – mato-te para que alguém venha me matar. A vingança era cardinal, condição de existência dessa sociedade – o devir.
Mas, o mundo se pacificou e a gente se viu obrigado a conviver, comercializar, amar, todo tipo de tribo. Só não apagamos o prazer em ver replicar nossas crenças. E, venham cá! Repousa, concreto e definido, no fundo do nosso cérebro, dois temas, sobre os quais não aceitamos divergência: sexualidade e morte. Portanto, é compreensível a razão de queremos passar a limpo os lençóis dos outros, decidir se quem mata deve morrer, e para piorar: aborto – sexo e fim.
Por outro lado, nossa capacidade mais cara, aquela da qual nos orgulhamos verdadeiramente, que colocou canga e rédeas nos instintos, é o sumo do complexo neocórtex. Foi ele que permitiu, por exemplo, que nós nos sentássemos em um restaurante. Que experiência essa! Quanto controle tivemos que adquirir, quanta segurança alcançada para se sentar à mesa, comandar uma entrada, o prato principal e a sobremesa. A troca de talheres, corta com uma mão, leva à boca com outra, ver passar o bifão do cliente do lado e não avançar. Esperar elegantemente, bebericando um drink ou um vinho previamente selecionado para harmonizar no palato. Nos é permitido dialogar sobre a vida, experimentar a paz, desfrutar do conforto de saber que na cozinha alguém está a cozinhar com esmero, algo que saciará nossos desejo e fome. No entanto, a Inconstância de nossa Alma Selvagem, é a seiva consolidada que tanto mantém como conserva o bicho de que todos nós somos feitos.