09 de julho de 2026

Teatro: muito mais que profissão


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A formação técnica de artistas de teatro ganhou grande importância ao longo dos anos

Fotos: Fellipe França/Grupo Corpo Negro

O Dia Nacional de Teatro, data festejada há 40 anos, quando foram regulamentadas as profissões de artista e técnico de espetáculos de diversões no Brasil, foi comemorado no dia 19 de setembro. Com muitas dificuldades encontradas ao longo do tempo, o teatro veio lutando contra a repressão e hoje a voz artística continua seguindo seus passos não só com o entretenimento, mas também levando discussão e conscientização de temas sociais, apresentando sátiras junto a polêmicas. Em Franca, diversos grupos, artistas e cursos têm muito a comemorar o crescimento e, sobretudo, as mensagens políticas e sociais propagadas com essa arte.

A formação técnica de artistas de teatro ganhou grande importância ao longo dos anos, pois amplia a consciência corporal e a bagagem de conhecimento para as discussões abordadas.

O grupo Corpo Negro, que nasceu em 2016 durante a qualificação do curso Técnico em Teatro do Senac Franca, passou a colocar em pauta e debater algumas questões afro-brasileiras. “O projeto surgiu de alunos do Senac que tinham uma forte inquietação sobre a figura do negro nas artes e nos espaços públicos, assim como o desejo de discutir a marginalização do corpo negro e as desigualdades, como vínculos de trabalho e a solidão da mulher negra”, disse Nathalia Fernandes da Silva, docente do Senac Franca e diretora do grupo. Segundo Nathalia, o teatro é um instrumento para a transformação social, pois ele tem a responsabilidade de levantar pautas e assuntos que fazem a sociedade se enxergar e compreender suas limitações. “Quando se fala que teatro é mais que uma profissão, é porque ele possibilita o ofício aliado ao prazer. Não se atua somente pelo ganho monetário, a arte tem a perspectiva de ser algo que se goste de fazer‘.

Uma das principais discussões do grupo é: “Cadê os atores negros?” “A participação em representações teatrais, geralmente, é para fazer um personagem marginalizado: escravo, ladrão. Por que não para retratar alguém bem sucedido? Um médico, um advogado”, indagou.

Nathalia ressalta a importância da compreensão do teatro como profissão. “A formação traz insumos para o processo criativo do ator e o faz ter consciência do que está fazendo, da relevância da arte e suas possibilidades. O conhecimento permite compreender historicamente o teatro, aprimorar técnicas de interpretação, aprender sobre caracterização de personagens, dramaturgia, enfim, frentes imprescindíveis para o fazer teatral. Quando se qualifica, você entende como despertar o corpo para o estado criativo, a utilizá-lo, de fato, como um meio de expressão‘.

No interior, uma das principais formas escolhidas para manter a arte é o teatro de grupo e esse tipo de arte vem crescendo bastante em Franca, como o grupo Corpo Negro.

Entre as conquistas do grupo está a contemplação no ProAc (Programa de Ação Cultural de Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo) no edital Primeiras Obras, destinado aos que estão começando. A iniciativa aprovada é: O Mundo começa pela cabeça como é a vida de uma criança negra, que será desenvolvida nas escolas por meio de contação de histórias e espetáculos teatrais.

‘Já tínhamos a vontade de exercer a função de artistas e a temática da cultura negra nos incentivou a debater a representatividade e ocupação dos negros na sociedade e no teatro. Na nossa sala de aula, por exemplo, dos 30 alunos, apenas quatro eram negros‘, conta Josiana Martins, uma das fundadoras do grupo. Ela também conta que o processo de formação profissional foi muito importante na consolidação da iniciativa no mercado. ‘O curso nos ensina a potencializar nossa expressão e organização técnica, dando qualidade ao trabalho. As aulas qualificam o artista além da presença cênica, envolvendo conhecimentos de figurino, iluminação, cenários e produção. Isso nos prepara tecnicamente para a realização de trabalhos.‘

Para Rafael Bougleux, que também é docente de Teatro do Senac Franca, a arte se reflete atualmente em nossa sociedade e acredita que a qualificação tem grande importância.‘A qualificação em teatro coloca o aluno em contato com técnicas, conhecimentos e habilidades que elevam a compreensão do fazer teatral e da visão de mundo‘.

O Corpo Negro pretende continuar trabalhando na peça Contos Negreiros, que já existe e está em vias de mudança de nome. ‘Iniciaremos uma nova pesquisa para executar o projeto infantil contemplado pelo Edital ProAC Produção de Primeiras Obras de Espetáculo e Temporada de Teatro no Estado de São Paulo. Buscamos permanecer, enquanto grupo de teatro, desenvolvendo pesquisas, construindo espetáculos, circulando com os trabalhos finalizados e possibilitando novas formas encontros, como o teatro, bate-papos, oficinas, debates‘, finalizou.