09 de julho de 2026

Uma ativista inspiradora


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Ela se encontrou com os Obama na Casa Branca; foi recebida pela rainha Elizabeth no Palácio de Buckinghan; tem retrato exposto na National Portrait Gallery – o que não é pouca coisa. Em sua homenagem Angelina Jolie escreveu um ensaio e a ela Madonna dedicou uma canção. Em 2014, aos 17 anos, tornou-se a mais jovem ganhadora do Nobel da Paz. A instituição famosa sediada em Estocolmo reconheceu a importância de seu trabalho em defesa do direito de meninas do mundo inteiro à educação. No discurso com que agradeceu a láurea, ela voltou a dizer que “uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo”.

Claro que o leitor já sabe que estou falando de Malala Yousafzai. Vítima de um atentado quando tinha 14 anos, foi obrigada a deixar a terra natal, o Paquistão, e só voltou à sua aldeia no ano passado, quando conseguiu visitar a casa onde morou até que fosse atingida pela violência que por pouco não liquidou sua vida adolescente. Seus agressores, pertencentes ao Taleban, grupo terrorista muçulmano, já haviam destruído até então 400 escolas no Vale do Swat, onde a garota morava com sua família.

O pai, forte influência sobre a filha, desbravou-lhe mundos ao incentivá-la à leitura, na certeza de que um bom livro pode levar o leitor a ressignificar sua própria vida. Assim, para ler mais e ampliar seus conhecimentos, a menina desobedeceu ordens expressas dos fundamentalistas, que proibiam mulheres nas escolas. Ousando ir no caminho que lhe ditava coração e razão, fez mais, protagonizou algo quase inacreditável nas circunstâncias em que vivia: criou um blog para a BBC local para falar de forma clandestina de sua vida naquele período de ocupação da região pelas tropas do Taleban. Obviamente, usava pseudônimo. Mas foi descoberta, e quando, com três colegas de sua idade, seguia escondida na carroceria de um caminhão rumo à escola, foi alvejada por tiros que a atingiram no rosto e cabeça. Teria morrido, não fosse a interferência dos representantes da BBC que se mobilizaram para retirá-la do país, levando-a para Londres, onde foi operada e passou várias semanas hospitalizada. Desde então reside na Inglaterra, atualmente em Oxford, onde, aos 21 anos, estuda filosofia, política e economia na famosa universidade britânica.

Foi ali que ela gestou a ideia que desde 2013 tornou-se realidade: a organização Malala Fund, presente em seis países. Um deles é o Brasil, onde 1,5 milhão de meninas estão fora da escola. Isso significa um contingente de adultas analfabetas que só tende a crescer, pois pelo que tenho visto na campanha que definirá no próximo domingo o futuro presidente da República, nenhum candidato apresentou sequer um projeto consistente para educação. Voltando à Malala, ela estreia agora na literatura com livro infantil que no Brasil será publicado pela Companhia das Letrinhas, com tradução de Lígia Azevedo e ilustração de Kerascoet ( pseudônimo do casal francês Marie Pommepuy e Sebastien Cosset), cuja estética tem na delicadeza um dos pontos fortes, conseguindo mostrar as misérias da vida de um jeito que não afasta o leitor mirim. Aliás, o conduz à reflexão sobre o fato de que milhares de meninas e meninos vivem na pobreza e sem acesso à escola neste nosso mundo desigual. O título é “Malala e seu lápis mágico”, e não corresponde, diga-se de passagem, a um conto de fadas.

Outra boa notícia trazendo mais uma vez à baila Malala ao público brasileiro é a divulgação, na semana passada, pelo Ministério da Educação, de que alunos do ensino médio vão receber mais exemplares de literatura em 2019, além do material didático. A escolha das obras será das escolas, a partir da opinião de diretores, coordenadores e professores. Entre as sugestões que já aparecem ( Cecília Meirelles, Aldous Huxley, José J. Veiga...) está a biografia de Malala Yousafzai. Torço para que vingue, pois a vida da ativista pode ser inspiradora para crianças e jovens. Apesar da sua realidade estar distante da nossa em termos geopolíticos, culturalmente nos encontramos bastante próximos, dado o crescimento da discriminação, exclusão, violência, radicalismo e preconceito, sob o denominador comum da pobreza e da ignorância. Se a gente não esconder a cabeça na areia, não tapar o sol com a peneira, não deixar que as paixões perturbem o senso crítico, verá que muitas vezes o Paquistão é aqui.