Passava pouco das 3h da manhã quando o obsoleto despertador tocou. O homem já estava acordado. Repassou suavemente as tarefas que ele já sabia de cor: terra, água e, por último, separar as encomendas.
As hortaliças tão verdes e frescas despontavam nas cristas dos morrinhos e faziam descabidas exigências como: rúculas mais frescas e novas. Mas se era assim, não haveria mal em se demorar uns minutos a mais para escolher, dentre as verduras prontas, qual não conheceu o declínio.
Ele imaginava como descobrir o cume da maturação sem que o pé tivesse tocado o chão da curva descendente. Ele as encontrou, o luar ainda firme brilhava na água das folhas, arrancou os pés da terra, seguiu para o tanque de lavagem, com cuidado retirou os torrões de terra, evitando a agressão que comprometeria a vitalidade.
Antes das 7h da manhã, as rúculas estavam dentro de sacolas identificadas com nome e endereço de entrega. Depois de serem colhidas, quem sabe prematuramente, empreenderam rápida viagem – do sítio para a cidade. Na primeira parada, uma reunião de hortaliças contava a mesma história, todas estupefatas com a rapidez da decrepitude. Antes de o sol nascer vicejavam orgulhosas e espalhavam as folhas num espreguiçar de clorofila. Agora, amotinadas em algemas plásticas, etiquetadas, pareciam sufocar.
Cada um desses pacotes chegou ao seu destino. Passaram por outra lavagem, desinfecção, secagem e estocagem. Foram misturadas à outras folhas, quanto mais diferente e distante o parentesco entre elas, melhor. A alface lisa é sousplat da americana, que é a concha a acolher folhinhas de rúcula e agrião, enquanto galhos de mimosa se encaixam como chifres. Permaneceram assim a tarde inteira numa caixa plástica cobertas por um pano umedecido, dentro da geladeira e, por um instante, o tempo congelou.
As folhas revigoradas se perguntavam se haveria um outro jeito de viver...
Por volta de 8h da noite, os primeiros casais chegaram e os primeiros buquês foram despertados da criogenia e postos num prato elegante, francês. Seus corpos foram banhados por limão, sal e azeite. Mas era data especial e a salada recebeu flores comestíveis: capuchinhas, que vão do amarelo ao vermelho intenso, aguardavam numa caixinha o momento de coroarem a salada.
Flores rasteiras são agora a cabeça do vencedor, sua cor quente capta todos os olhares e tem o dom de fazer sorrir os enamorados que se sentam à mesa do destino final das tremulantes hortaliças.