Saí de Franca, rumo a Turks e Caicos, não muito animada com a comida, porque a ilha é majoritariamente frequentada por americanos - daí.... No entanto, o menu do hotel, disponibilizado na web, prometia: orgânicos, crus, leveza e paladar. Paguei para ver, e mesmo acostumada à proposta vegetariana, meu queixo caiu. Normalmente, meu café da manhã é: salada de folhas, legume cru ralado, um pão de queijo da Pão Nosso, uma banana e um copo de suco verde. Parece dieta, mas não é! É só gostoso mesmo. Também parece complicado de fazer. Não é, questão de jeito, apenas.
A descrição de um café da manhã pode enfarar, mas vocês entenderão que o caso pede. Os hóspedes se serviam de duas formas: buffet e menu. Assim, o desjejum se tornava um ritual de: entrada, prato principal e sobremesa.
O local é pequeno e bem dividido em ilhas. Na primeira, uma tina com gelo acomodava pequenas garrafas com leites vegetais de vários sabores. Castanhas e amêndoas combinadas eram a base de diferentes granolas, iogurte grego, coalhada com mel, frutas desidratadas na calda de mel e frutas secas, só secas mesmo.
Na segunda ilha, as frutas frescas e garrafas com sucos naturais e água de coco. Iogurtes vegetais com frutas amarelas, vermelhas ou verdes, ou salada de frutas, só não tinham bananas.
A terceira era dos legumes. Um pote enorme de vidro guardava talos de vários legumes crus: salsão, alho porró, cenoura, erva doce, rabanete, nabo, aspargos, pepinos e vagens. Ao lado, um outro pote, igualmente grande e belo, exibia as verduras, folhas impecáveis de: endívia, alface romana, radichio, repolho, couve. Pelo colorido, pela luz da manhã, ninguém era indiferente aos jarros, que mesmo cheios, se conservavam diáfanos e brilhavam como joias.
A quarta ilha, a mais picante de todas: salmão defumado, tomates, queijo, pão preto, pão sete grãos, pão sem glúten e um pão branco.
E, ainda, o cardápio com os pratos principais. Durante uma semana não repeti nenhum, ainda assim, não cheguei a metade das opções. Um exemplo basta pelo todo, tomemos como metonímia do menu, a abobrinha em lâminas com bolinho de edamame (soja verde) fatia de abacate e ovo poché.
Poderia concluir envolvendo-os em cheiros, sabores de excelência e montagens apetitosas, mas não é isso. A questão é a moral da nossa fábula (quase) sem animais: a mudança comportamental. Ela permitiu que um grande hotel pudesse oferecer algo como o descrito acima. Quaisquer dos pratos poderia figurar como a opção vegetariana, às vezes vegana, de um grande menu. Mas não: eles estavam na ordem do dia. Apenas um prato levava bacon e não foi o mais pedido. Vi muita gente elogiando e devorando serras de tudo ou várias das opções e não vi ou ouvi reclamações. Tampouco notei hipocrisia ou pretensa humildade, ao contrário, pareceu-me que todos soubessem que ao nosso lado, muito à vontade, sentava-se o Privilégio.