Marco Antônio do Nascimento, 42, praticamente nasceu e cresceu dentro de um estabelecimento comercial. O avô era dono de açougue no antigo mercadão. O pai comandava o extinto Supermercado Redentor. Com a aposentadoria do pai, ele e o irmão Marcelo passaram a investir no setor de postos. São donos da rede Astro, que tem cinco unidades em Franca.Há sete anos, é o presidente do Sincopetro, o sindicato que representa os interesses do setor. Foi o mais jovem empresário a assumir a presidência da entidade no Estado, aos 35 anos. Marco recebeu o Comércio para falar sobre as constantes polêmicas em que os postos de combustível estão envolvidos.
Como você define os dias em que a greve dos caminhoneiros secou os postos?
Foi uma loucura. Em 15 anos atuando no setor, eu nunca tinha pego uma crise tão brava. Conversei com revendedores mais antigos e eles me disseram que também nunca enfrentaram um desabastecimento semelhante. Antigamente, formavam-se longas filas nos postos quando o governo anunciava aumento, mas não chegava a acabar o combustível. Na greve foi diferente: acabou o combustível, ninguém tinha. O produto virou água no deserto e todos correram para os postos. Depois, veio o efeito ressaca, que é o que estamos sentido agora: o movimento dos postos caiu de 50% a 70% em todos. Por que? Vendeu-se muito anteriormente, muita gente condicionou em galões e guardou. A necessidade fez a pessoa estocar.
Vocês chegaram a temer pelo pior?
Foi a pior semana das nossas vidas. Era o cliente doido pelo produto e eu não tinha no tanque, era a gente correndo atrás para comprar e nenhum distribuidora tinha como vender. Os caminhões não podiam sair das bases. Os manifestantes não aceitavam e faziam ameaças. Foi muito tenso. Os manifestantes que estavam no Paineirão abordaram um caminhão no Distrito Industrial, levaram para lá e prenderam o motorista porque ele trouxe combustível para fornecer para a Polícia Militar. Isso é sequestro. Depois, entraram em acordo e liberaram o cara no dia seguinte porque já é crime. Uma coisa é você passar em protesto e eles te segurarem por um luta deles. Outra coisa é pegar um caminhão fora e trazer para dentro de um manifesto. Isto, ocorreu aqui. A situação ainda é tensa, pois os caminhoneiros podem voltar a parar a qualquer momento. Para completar, o governo jogou uma batata quente em nossas mãos. Ele prometeu reduzir R$ 0,46 no preço do diesel para o consumidor, mas nós não estamos conseguindo este desconto na hora de comprar nas distribuidoras. Estamos repassando o desconto que estamos recebendo, que gira em torno de R$ 0,30.
O que representa ser dono de posto?
É uma luta muito grande. O setor está muito mal falado perante o consumidor e a imprensa. Na verdade, não é bem assim. Para administrar um posto, temos muitas responsabilidades, não é fácil, principalmente, diante da atual situação de crise do País. Dentro do nosso segmento, há vários fatores que influenciam o preço final. Não depende da nossa vontade. Somos comerciantes como outro qualquer. O problema é que o combustível afeta diretamente o bolso da população. É preciso abastecer o veículo todos os dias. Sem o combustível, você não se locomove. É um item extremamente necessário.
Há cartel de preços em Franca? Os donos de postos combinam os valores que serão cobrados?
Não há cartel. O que há é o emparelhamento de preços por conta do custo do produto que é, praticamente, igual para todos os revendedores. A fonte onde buscamos o produto é a mesma. O grande fornecedor na cadeia é um só, a Petrobras. Ela vende pelo mesmo valor para todo mundo. Não tem como haver uma disparidade muito grande de preços. Há uma pequena variação de milésimos de centavos. Somos constantemente investigados pelo Ministério Público e pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). Fomos investigados até pelo Gaeco e não foi constatada a formação de cartel. Além do custo ser igual, o dono de posto está sempre de olho no preço que está sendo cobrado pelo seu vizinho. Somos o único estabelecimento que tem que ostentar o seu preço para o consumidor. Há uma norma da ANP que estipula até o tamanho da placa na qual vamos exibir o preço.
Por que o preço de Franca está sempre entre os maiores do Estado?O mercado francano é sadio para todos, trabalha com o preço justo para o consumidor. O preço é livre, não há tabelamento, mas existe uma pauta, que é o preço sugerido para se cobrar o ICMS. Em Ribeirão, o mercado é mais nervoso, há a guerra de preços. Em 2017, foram fechados 12 postos em Ribeirão por conta da política de preços. Um fato importante que precisa ser levado em consideração pelos consumidores é a qualidade do combustível. Dias antes do manifesto, o preço médio da gasolina praticado em Franca era R$ 4,17. Em Ribeirão, estava R$ 4,22. Em São Paulo, estava R$ 3,99. Mas o Ministério Público, o Cade e a ANP constataram que não há incidência de combustível adulterado em Franca ao passo em que a prática ocorre em outras cidades. O francano compra um produto de qualidade e na medida certa.
A Câmara aprovou projeto de lei em março que reduz para cem metros a distância mínima para se abrir um posto em Franca. A intenção foi incentivar a concorrência e tentar derrubar os preços. Qual sua opinião a respeito?
Respeito a opinião dos vereadores, mas não acredito que a medida vai refletir nos preços. Como ficou claro durante os manifestos, os postos seguem uma política nacional de preços que envolve diversos fatores, não é uma questão de distância física entre os estabelecimentos. Em Franca, já houve várias regras. A distância mínima já foi de dois quilômetros, depois caiu para mil e para 500 metros. Na década de 90, ficou sem parâmetro e a distância foi reduzida a zero. Foi o período em que apareceram os postos que estão um em frente ao outro, como é o caso da Alonso y Alonso, onde há vários postos próximos com preços praticamente iguais. Isto mostra que a distância não interfere.
Por que, então, os donos de postos foram contra a redução da distância?
Fui contra pela questão ambiental, pelo risco. Em maio, houve uma explosão em um posto de São Paulo que fica ao lado de uma escola. Por sorte, toda a estrutura caiu sobre o pátio e não havia ninguém. Não estamos falando de um comércio qualquer. Um posto é seguro, segue normas rígidas, a segurança evoluiu muito, mas lidamos com um produto altamente inflamável. Uma faísca de uma celular, que é imperceptível para nós, pode ocasionar uma explosão. Acredito que é perigoso concentrar vário postos em curto espaço. Se ocorrer uma explosão em série os bombeiros estão prontos para agir? Quanto mais postos, maior o risco. O posto é uma bomba relógio. Outro problema é a questão ambiental. Há 23 postos em Franca que contaminam o nosso solo e que são monitorados pela Cetesb. Um exemplo é aquele postinho que tinha próximo ao Cemitério da Saudade. Quando os coveiros cavavam as sepulturas, tinha produto lá, cheiro de combustível. O posto fez a reforma, a Cetesb acompanha, mas houve a contaminação.
A sua rede de postos promove um trabalho social junto à entidade Bicho Feliz. O que pode falar sobre esta iniciativa?
Minha mulher, Fabiana Garcia do Nascimento, é médica veterinária e sentiu a necessidade de participar de uma entidade ligada aos animais abandonados. Em parceria com a Bicho Feliz, começamos a desenvolver algumas ações. Disponibilizamos um local para receber estes animais, toda a despesa é por nossa conta. Chegamos a ter quase 80. No mês de setembro, sempre no primeiro ou segundo sábado, fazemos o Dia do Bicho Feliz em que doamos todo o lucro das vendas para a associação.