10 de julho de 2026

Metade das famílias dizem 'não' para doação de órgãos


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Comissão Intra-hospitalar de Transplantes da Santa Casa comemorou 15 anos nessa quinta-feira

“É uma honra saber que um pedacinho do meu filho hoje vive em outras pessoas. É um consolo, em meio à dor, poder dar a felicidade a outra família.” É assim que a curtumeira aposentada Nair Maria dos Reis, de 72 anos, descreve o que sente após ter doado os órgãos de seu filho, Saulo Tiago Ferreira, que morreu aos 31 anos em dezembro do ano passado, depois de sofrer um grave acidente.

O gesto, resultado de um desejo do filho que havia revelado à irmã que gostaria de ser doador, foi responsável pelo sorriso de ao menos duas famílias que aguardavam na fila de transplantes. Com morte cerebral confirmada, o jovem, que trabalhava com reciclados, doou o rim e o fígado.

“Antes nunca tinha pensado em doar, mas era o desejo dele. Hoje, acompanhando cada história e vendo que, apesar de sofrer por sua falta, tive a oportunidade de ajudar, falo para todos que a doação é um ato maravilhoso e todos deveriam se conscientizar disso”, declara, emocionada.

Portador de uma distrofia hereditária, Gerson de Souza Faleiros é um dos milhares de pacientes beneficiados com transplantes de uma das córneas captadas pela Comissão Intra-hospitalar de Transplantes da Santa Casa de Franca. “Passei por dois transplantes de córnea, tenho uma distrofia e precisava das cirurgias. Hoje, sem óculos e enxergando o mundo claro, agradeço a iniciativa dos doadores. Acho que todos que puderem doar devem fazer isso”, disse.

Essas foram apenas duas histórias, em meio a milhares existentes, contadas na manhã de ontem, 7, em um evento especial na Santa Casa de Franca que celebrou os 15 anos da Comissão Intra-hospitalar de Transplantes do hospital. “Hoje, em Franca, 48% das famílias ainda se recusam a doar órgãos, número acima da média nacional que é de 42%”, disse a assistente social Márcia Floro da Silva.

 

‘A morte ainda é um assunto tabu, mas é preciso falar’

Instituída em Franca no dia 18 de maio de 2001, a Comissão Intra-hospitalar de Transplantes da Santa Casa passou a funcionar efetivamente em 2003 e, desde então, segundo a assistente social Márcia Floro da Silva, integrante da equipe desde o início, trabalha para conscientizar a população sobre a importância da doação de órgãos.

“A captação no Brasil, de modo geral, não é efetiva como em outros países com a mesma estrutura para esse trabalho. Nossa equipe está empenhada e evoluiu muito nos últimos anos, repassando tudo o que foi realizado podemos ver ações efetivas e projetos importantes realizados. Contamos ainda com os voluntários do Projeto Luz, que lida com os familiares e, através de suas horas de trabalho, já conseguiram viabilizar a doação de milhares de córneas”, disse Márcia.

A principal dificuldade, segundo ela, ainda é a falta de diálogo sobre a doação de órgãos entre as famílias. “A morte ainda é um assunto considerado tabu, mas é preciso falar sobre isso. A nossa comissão realiza o trabalho de sensibilização interna e externa e começamos, inclusive, a falar sobre a doação de órgãos nas escolas municipais e estaduais.

Números

Em 15 anos de trabalho efetivo, a Comissão Intra-hospitalar de Transplantes captou a doação de 176 rins; 88 fígados; 7 pâncreas; 2 pâncreas/rins; 6 corações; 8 ossos e 5.556 córneas.

No caso do Projeto Luz, com foco na abordagem das famílias que podem ser doadoras de córneas, em 15 anos, foram realizadas 4.920 entrevistas, sendo 2.781 casos consentidos e outras 2.139 recusas.

Estes números são referentes apenas no caso de morte de coração parado e não morte cerebral. O índice aponta que 43% das famílias foram contrárias a doação. Em Franca, no prazo citado, foram realizados 154 transplantes de córneas.