Perfumes evolam de abacaxis e manacás
Doçuras se desentranham de jabuticabas e sapotis
Há estrondos de cachoeiras em pororocas e oiapoques
Mais ruídos de água corrente em igarapés e iguatemis
Às vezes o paladar se adoça com a pitanga
Outras pode queimar a pele a taturana
Mas como dizia o nosso Guimarães Rosa:
Língua e vida são sempre a mesma coisa!
Mas saberá a moça que gosta de ipês e samambaias
Onde foram nomeadas assim essas plantas tropicais?
Quem foi o primeiro tupi que as batizou na sua língua
De um jeito tão certeiro que trocas não houve mais?
Se vou à quitanda , compro quiabo , pago ao moleque ;
Se danço samba, o berimbau me chama, toco ganzá-
Vou me lembrar que atrás dos nomes se escondem homens
Que faziam cafuné, tomavam cachaça, comiam fubá?
Minha pátria é a língua brasileira- falo entusiasmada
Tem verbetes de índio, tem presença de africanos.
E se volto lá atrás encontro no alvoroço das cruzadas
Aquelas palavras árabes que atravessaram oceanos:
Álcool, alfazema, algarismo
Alecrim, alambique, algodão
Almôndega, aletria, algoritmo
E outras sem o -al, como limão.
Nessa mixórdia organizada pelos séculos
Que viram nascer do latim o tal romaço
Foi depois se firmando entre dois reinos
O galaico-português dos lusitanos.
Depois os trovadores começaram
A realçar em suas rimas e langores
A língua que se ia fixando
Entre cantigas de amigo e de amores.
Muito tempo depois de tudo isso
Veio Camões em toda pompa e toda glória
Elevar aos patamares mais sublimes
A língua que Cabral traria aos pósteros.
E a história se retoma lá em cima
Com a chegada das naus e do idioma
Que encontrou entre nativos e escravos
O Brasil onde cresceu se transformando.