Cinco e meia da manhã, meu olho abriu sozinho. Vou à cozinha: ninguém. Estou livre, sem patrulhamento. Na despensa descubro a caixa de aveia em flocos. Quacker, daquelas antigas. Um copo de leite na panelinha de ágata, açúcar, uma pitada de sal, duas colheres de sopa dos flocos. Mexo bem, espero engrossar, despejo o mingau numa tigelinha. Canela em pó por cima. Cheiro profundamente, mentalmente agradeço a receita materna, sento-me à porta da cozinha, olho amanhecer um pouco mais a cada colherada daquela ambrosia. Dez horas. Café da manhã distante, o almoço vai demorar. Para tapear o estômago, uma banana nanica pequena, um pouco de mel, granola sequinha por cima. Como rezando, acompanhando o ritmo da música que está tocando no rádio. Treze horas. Pessoalmente preparei o almoço: arroz branquinho; feijão preto fresquinho; salada de tomates fatiados fininho com azeitona verde e bastante cheiro verde; ovo frito (redondinho) de gema mole - pimenta do reino salpicada e farofa de farinha de mandioca virada na manteiga. (Se pedirem, passo um bife na chapa.) Sobremesa: goiabada cascão com requeijão. Após, café com queijo. Ambos fresquinhos. Quinze horas. Sinto o tentador cheiro de pão crocante vindo da padaria ao lado. Busco um, passo manteiga, chá mate: puxa vida! Dezenove horas, de um outro dia. Ninguém em casa, só eu. A fome bate. Seis horas desde o fim do almoço. Procuro as socas na geladeira. Na panela boto azeite e vou compondo: cebola batidinha, ovo, tomate em pedacinhos, carne picadinha, ervilhas. Mexo tudo para justificar o nome do prato. Espero um pouco, arroz, farinha e queijo ralado. Cheiro verde. (Só troco um prato disso por filé de sardinha temperado com cebola, limão e pimenta. Com pão.) ...E aí alguém vem me dizer que seu prato predileto é lagosta-sei-lá-o-quê ou salmão-não-sei-de-onde ou trufas sei-lá-de-que-jeito? Tá bom...