11 de julho de 2026

Separadas por tragédia, irmãs se encontram 24 anos depois


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Emoção sem fim: todas as irmãs se reencontraram pela primeira vez após 24 anos, na sede do GCN, na manhã desse sábado
A história a seguir tem todo os componentes de roteiro de um filme cinematográfico: violência, drama, sofrimento, emoção. Mas, não é ficção. O relato é real, tem como personagem uma família pobre de Franca e ainda está longe de um final feliz. Para entender a complexa trama é preciso fazer uma viagem no tempo e voltar 24 atrás.
 
Julho de 1993, Jardim Santa Bárbara, zona sul de Franca. O pedreiro Milton Pereira, 38, chegou bêbado em casa e começou a bater com um fio de arame na mulher, Maria da Glória da Silva, 29. O casal tinha cinco filhas entre 1 e 9 anos, que assistiram ao espancamento. Assustadas, as crianças foram colocadas para dormir no quarto. Foi a última noite que dormiram juntas. Elas nunca mais iriam ver os pais e estavam prestes a se separar por mais de duas décadas. “Naquela noite, eu acordei com gritos de socorro, mas como era comum eu ter muitos pesadelos, voltei a dormir de novo”, disse Sirlene, a mais velha das irmãs, hoje com 33 anos.
 
Não era um pesadelo. Era a mãe dela implorando por ajuda. Quando foram despertadas por vizinhos na manhã seguinte, as meninas se deram conta da tragédia ocorrida dentro de casa e que mudaria para sempre suas vidas. O pai delas havia matado a mãe com golpes de machado. Em seguida, ele se enforcou com um fio de nylon. “A ideia dele era matar todo mundo. Disse para os vizinhos que ninguém mais naquela casa iria precisar comer mais. Comprou álcool para colocar fogo na casa, mas desistiu por algum motivo que não sabemos. Foi Deus que nos livrou. Se eu tivesse me levantado para ver o que estava acontecendo, com certeza, eu não estaria aqui para contar a história”, disse Sirlene. 
 
Com a tragédia, cada criança tomou um caminho diferente. Se separaram e foram morar com tios e madrinha. Mesmo morando em Franca, as irmãs se distanciaram. Três delas, mantinham contatos esporádicos. Milena, 25, e Lídia, 27, só foram se reencontrar na Defensoria Pública no dia 29 de maio deste ano. Desde aquele noite trágica, as cinco irmãs só voltaram a se juntar na manhã de ontem, na sede do GCN, quando concederam uma entrevista emocionada.
 
Antes de falar do encontro, primeiro é preciso voltar aos dias atuais, falar da situação em que se encontram e o que fez elas se encontrarem 24 anos depois de perderem os pais de maneira trágica.
 
Milena, Cleir e Elenice estão desempregadas. Sirlene é sapateira. Lídia trabalha como gari. “Tenho orgulho da minha profissão. Mesmo com todas as dificuldades que passamos, virei gente. Deus faz tudo certo. A tragédia, por mais triste que seja, nos ajudou a sermos pessoas melhores”, disse ela.
 
Mãe de quatro filhos, Elenice morava no Abrigo Provisório até março deste ano. Agora, está em uma casa sem o mínimo conforto. O aluguel será pago pela Prefeitura até setembro. Depois, não sabe para onde vai.
 
Agora, começa outra parte da história. Há poucos dias, Lídia recebeu uma citação da Justiça para se defender como herdeira de um processo de usucapião movido por uma mulher que mora na casa de seus pais. “A gente nem sabia que tinha casa. Alguém se aproveitou da tragédia e ficou morando lá. Como éramos crianças e nossa família muito simples, ninguém foi atrás. É revoltante saber que tem alguém querendo tirar o que é nosso. Temos uma casa, que ajudamos a construir e, ao mesmo tempo, não temos nada”, disse Elenice, que já passou teve que morar no Abrigo Provisório em dois momentos da vida, por não ter para onde ir. 
 
Desempregada, Milena mora a poucas quadras da casa que é dela e das irmãs. “Só fiquei sabendo agora que a casa é nossa. Tudo o que a gente mais quer é que a Justiça seja feita. Vamos brigar até o fim para recuperar o que é nosso, pois passamos por muitas dificuldades. De certa forma, o processo movido pela mulher serviu para unir a gente novamente”.
 
Vinte e quatro anos após a tragédia, as cinco irmãs voltaram a se encontrar pela primeira vez ontem no GCN, para contarem sua história. Abraços, lágrimas, sorrisos, histórias e promessas de nunca mais se separarem marcaram o dia histórico. “Eu sempre sonhei, mas nunca acreditei que este momento pudesse acontecer. Foi lindo, maravilhoso, mágico. O destino uniu a gente novamente. Agora, vai começar uma nova vida”, disse Cleir.