naquele tempo, em que a gente ainda pensava em ir para Londres, parece que tudo acontecia e o que não acontecia nós imaginávamos. corria nas veias todas as possibilidades da correnteza, da noite adentro e dos vícios cultuados.
e, nos dias que se comiam, fomos sequências anárquicas, a derrubar copos e argumentos, entre garrafas e meias-luzes, que nos pegavam bêbados, no rabo da madrugada ou na claridade escandalosa do início da loucura.
Qualquer um que fosse nós
Derramaria o mesmo fel
Mataria a mesma esperança
Renascendo em outro mausoléu.
tínhamos apenas a frouxa vontade de fazer, e, se não o fazíamos, pelo menos, sustentávamos a grande capacidade de imaginar, criar a cena e vivê-la plena. fomos, juntos, grandes possibilidades, atos incontáveis de tentativas tantas.
Estou sentado e morto
O barulho das máquinas sufoca
E a intriga na mesa ao lado
Carrega meu senso crítico.
eu não poderia mais oferecer ilusões e isso me entristece. estou triste e, só, resisto. carrego todos os meus anos e segredos como um fardo a lanhar o grande universo de meus desencontros. as minhas respostas não são sinceras e todos acreditam na minha sinceridade. eu tenho segredos e eles desconfiam, eu tenho verdades e eles pedem mentiras, eu tenho veneno e eles querem tomá-lo.
as pessoas vivem à caça de minhas fraquezas. tornei-me escudo através das palavras, da colocação enfática de uma após a outra. mas elas não sabem que é apenas isso e acreditam-me fortaleza. eu finjo tê-la e as alimento.
A mentira que trago latente
E cultivo na alma blindada
É a cinza que aduba a semente
E a incendeia depois de gerada.
e mais tentei ser, para aprender que o poder é perigoso. não para quem o possui, mas sim para quem dele se aproxima e, ao acaso, passa a testemunhá-lo.
tive de viver a loucura, não na queixa, mas no usufruto. tive de ser guerreiro e romper a meta de ser um por dois, ser oblíquo, eterna diáspora e frenética busca de comunhão. tivemos de acreditar em Londres, a fim de não morrermos sufocados em Salvador, onde aprendemos a olhar para trás tolamente e virginizar a sujeira coagulada em nossos anos de estupidez jogados fora.
mas sonhos tínhamos e vendemos. por um copo, por um trago, por um corpo ou um trocado, distribuímos nossas heresias e acreditamos contritos na cortesia, resultado de nossas divagações. como é chato chegar no futuro e constatar inseguro que aquilo tudo foi nada. e, pior, permanecer no passado, esperando o futuro que já chegou.
esse escritório, essa mesa, pessoas vazias, pontuais, venenosas, grandes bagatelas... como devastam minha teimosa esperança. eu era ridículo, entretanto não desconfiava. hoje sei e vivo como se não soubesse, o que, por fim, é a mesma coisa.
Essa dor que assalta a gente,
É punhalada.
Não se sabe porque sente
Somente que ela resiste
E com o passar do tempo
Deixa a gente mais triste.
abraçar dores sem conta, abracei por outros tantos. fui amigo, amante, bandido, traficante, arrependido. conquistei todas as terras desúteis. corações em conflitos foram assentados em meus campos de impaciência, eloquência e soluções. dormi em camas marcadas, parcerias esvanecendo à luz néon, amores vagos a esboçar na noite a tênue chama de fantasmas opacos.
Se o amor fosse aquilo
Bem ou mal se definia
Mas não era, nunca foi
Pois o gozo era a agonia
A sangrar nossa utopia.
não estou mais aqui. estou sob o sol, ao vento. não nesse ar infectado, que arde minha garganta, faz-me tossir e constatar minha falência. eu não tenho mais a noção de sequência. na certeza de minha idade, constato que estou velho há pelo menos uma vida inteira. meus olhos estão cansados e o meu corpo não me pertence. não amo tudo que amava. amo (?), agora, seletivamente e, quando sofro, quero que outros também sofram. não sou mais generoso e quero ganhar todas as guerras e fazer sangrar o inimigo acorrentado dentro em mim.
por todas as terras andadas, tentei ser fruto, mas não consegui ser semente. não houve muito tempo, porque o tempo, que parecia infindável, foi passando e, hoje, ele já passou. corremos atrás, mas, de fato, foi ele que nos alcançou e dilacerou nossas inúteis prorrogações, enquanto definhávamos, acreditando na nossa imortalidade.
E assim vou debulhando palavras
Fazendo testamentos
E morrendo de tédio.