No dia 15 de dezembro de 2013, Dom Paulo Roberto Beloto assumiu um dos maiores desafios de sua vida. Deixou o Estado de Goiás para assumir como bispo a Diocese de Franca. Hoje, passados dois anos, ele sente que aqui é sua casa. “Fiz muitos amigos, fui muito bem recebido. Eu só tenho a agradecer por tudo que Franca e seu povo já me proporcionaram. Mas ainda quero fazer muito. Não estou satisfeito.”
Foi em sua sala de trabalho, na casa simples onde mora no Centro de Franca, que Dom Paulo conversou com o Comércio na manhã do último dia de 2015, a quinta-feira, 31 de dezembro. Falou sobre a crise financeira e como ela afetou a cidade e os fiéis, sobre os crimes chocantes que aconteceram em Franca, a escalada da violência e também a respeito dos desafios da igreja católica para 2016.
Também anunciou a criação de mais uma paróquia e a intenção de aproximar a igreja das pessoas mais desassistidas. Ao fim, fez questão de abençoar a todos.
Chegamos ao final do ano de 2015. Qual o balanço o senhor faz? Para o senhor, foi um ano bom ou ruim?
O balanço que faço é positivo. Foi um ano de muitas realizações para a igreja católica de Franca e região. Começamos em 2015 a nos preparar para as comemorações dos 45 anos de fundação da Diocese de Franca. Organizamos as missões populares em todos os 19 municípios da diocese, principalmente para realizar duas coisas muito importantes: as visitas às famílias e as semanas missionárias.
No que exatamente consistem essas missões ou visitas?
Na verdade, são uma resposta que a igreja está dando ao Papa Francisco, que tem nos pedido tanto uma igreja mais próxima das pessoas, uma igreja de saída, de ir até as pessoas. É uma atividade que coloca nossas lideranças em contato direto com as comunidades. Essas missões são a presença da igreja. Queremos que as pessoas entendam que estamos lá, que estamos com elas, principalmente, nas periferias. A intenção da igreja é estar presente. Conhecer a realidade das pessoas, conhecer a situação em que as famílias vivem. Também queremos levar uma mensagem do Evangelho e convidar essas pessoas a participarem dos nossos eventos e celebrações. Não é um trabalho de catequese exigente ou exaustivo, mas apenas a presença da igreja junto das pessoas. É importante dizer que não visitamos apenas os católicos, mas todas as famílias, mesmo que tenham outra crença.
O ano foi marcado pela crise financeira que assolou o país. Como esta crise afetou a igreja católica em Franca?
Não temos um levantamento específico com números, mas é claro que a crise acaba trazendo muita gente de volta para a igreja porque, como estão passando por um momento difícil, as pessoas acabam retornando e buscando uma direção espiritual e religiosa para enfrentar essa realidade. Temos também um trabalho com o pessoal que mora nas ruas e aumentou o número de atendimentos. A gente também percebe sinais da crise até no próprio dízimo das nossas paróquias e comunidades que caiu um pouco, mas nada que nos impedisse de continuar com nossas atividades religiosas. A crise, para a igreja, não deixa de ser uma preocupação, porque ela traz reflexos como o aumento da violência e uma crise de valores.
Além dos problemas financeiros, 2015 também foi um ano muito violento em Franca. Só nesse ano foram mais de 25 assassinatos. Como a igreja vê esse aumento na violência? A igreja tem alguma ação para tentar diminuir a violência?
Isso é realmente muito preocupante. Cada vez que eu recebia o jornal e via uma notícia de morte na capa me assustava. Tenho conversado muito com os padres, com algumas autoridades e até com políticos sobre essa situação. Uma cidade de 340 mil habitantes, como Franca, ter esse número de homicídios é muita coisa. Na Europa, temos países inteiros que em um ano não registram mais que três ou quatro assassinatos. O que percebemos é que o crescimento da violência já está atingindo as nossas famílias. Muitas vezes, são crimes quase gratuitos que envolve drogas e falta de valores. Acredito que só um trabalho que tenha a participação de toda a sociedade, e não apenas da igreja, consiga encontrar um caminho para reverter isso. Precisamos de uma Franca com mais paz, com mais harmonia. E infelizmente, sozinha, a igreja não consegue resolver a violência, é preciso a participação de todos. Tenho pensado em organizar uma campanha, alguma coisa, mas não sei direito o quê. Ainda precisamos discutir mais esta questão para definir como poderemos ajudar. O que não podemos é fechar os olhos.
Na opinião do senhor, quais são os grandes desafios da igreja católica em Franca?
Como conseguiremos atingir esses novos bairros? Porque temos paróquias já estruturadas, mas na periferia que está surgindo, estamos um pouco distantes. Outro trabalho que temos que fortificar é o que envolve a família, principalmente, a família mais pobre. A juventude também é um grande desafio. Como tocar os jovens hoje? Como envolvê-los? São questões que temos que enfrentar. Agora, ainda temos a preocupação com esta crise financeira que pode se agravar e aumentar o empobrecimento da população.
O senhor completou em 2015 dois anos à frente da Diocese de Franca, que balanço o senhor faz desse período?
Eu sempre digo que não tenho dificuldades em me adaptar às situações. Em Franca, eu fui muito bem recebido. E sei que posso fazer muito mais como bispo. Quando paro para analisar, eu fico feliz com o caminho percorrido até agora, nestes dois anos. Hoje mesmo estava rezando e peguei minha agenda. Comecei a rever todos os compromissos que foram realizados durante 2015 e percebi quantas coisas boas aconteceram. Eu tenho muito a agradecer pela acolhida, pelo retorno, não apenas do povo de Franca, mas de toda a região. Me sinto em casa aqui. Fiz muitos amigos e estou feliz.
Uma das suas metas ao assumir a diocese era aumentar o número de paróquias existentes. O senhor já criou duas, no Jardim Redentor e no Jardim Aeroporto III, para 2016 estão previstas novas inaugurações?
Então, antes de pensarmos em criar novas paróquias, temos uma outra preocupação, que é a formação de novos padres. Não adianta a gente criar uma nova comunidade se não tiver um padre para estar presente. Estamos investindo muito na pastoral vocacional. Em 2016, já conseguimos um bom número de jovens que vão começar seus estudos religiosos. Também temos uma congregação que está desenvolvendo uma experiência na Diocese lá em Restinga. Nossa intenção é de, onde já existem grandes paróquias, ir formando pequenas comunidades, principalmente, na periferia. Temos que adquirir os terrenos, ir construindo as capelas. Já definimos a criação da Paróquia Nossa Senhora da Guia, que será ali perto do Aeroporto, em uma área desmembrada da Paróquia Santa Rita. Nossa intenção de criar novas paróquias se mantém. Temos algumas paróquias que já estão trabalhando neste sentido como a São Vicente, a Capelinha também, porque a área ali é muito grande. Conforme a cidade vai crescendo e novos bairros vão surgindo, a igreja também precisa acompanhar esse movimento.
Em 2016, o senhor completa 30 anos como padre e dez anos de ordenação de bispo. Qual o significado desta data para o senhor? E o que esse sacerdócio ensinou ao senhor nessas três décadas?
A idade vai avançando e a gente nem percebe o tempo passar. Aí a gente para para pensar e se assusta. São 30 anos dedicados ao próximo. Não me arrependo desta escolha que fiz, de dar o passo que eu dei. Eu não escolhi ser bispo, isso foi uma nomeação da igreja, que acolhi com o coração. Ser padre para mim é mais que uma vocação, é minha vida. Deus me possibilitou viver inúmeras experiências com as quais aprendi muito e sou muito grato. Mas é engraçado porque, apesar de valorizar tudo o que já vivi, sempre tenho a sensação de que podia ter feito mais. Sei que posso fazer mais. Acho que sempre podemos fazer mais. Eu ainda quero fazer tanto. Tenho muitos planos e, se Deus me permitir, quero continuar neste trabalho abençoado e que me proporcionou conhecer tantas pessoas e tantas realidades diferentes.